Saving Cirúrgico Estrutural
Este estudo é o segundo da série Evodux Intelligence sobre eficiência estrutural na saúde suplementar brasileira. O primeiro, dedicado ao Déficit Cirúrgico Estrutural, demonstrou que centros cirúrgicos privados operam com 30% de ocupação média e remuneração abaixo do custo real em 70% dos 134 tipos de pacotes cirúrgicos avaliados, com gap médio de R$ 4.750 por procedimento. O presente estudo avança sobre esse diagnóstico e demonstra o lado da solução: como a precificação estruturada da jornada cirúrgica completa gera saving mensurável e consistente para operadoras e prestadores simultaneamente.
A tese central é que o saving cirúrgico não é produto de corte assistencial nem de renegociação de tabela. É produto de dois mecanismos específicos: a padronização de insumos por protocolo, responsável por 66% do saving, e a escolha estruturada do tipo de protocolo adotado, responsável pelos 34% restantes. Esses dois mecanismos operam dentro do evento cirúrgico e preservam qualidade assistencial enquanto comprimem custo unitário por procedimento.
Cinco afirmações sobre saving cirúrgico estrutural
Estrutura e argumento do estudo
O mercado cirúrgico privado brasileiro opera sob pressão financeira crescente e sem instrumento de controle de custo por evento
A deterioração da margem hospitalar e o crescimento das glosas não são produtos de ineficiência operacional isolada. São o resultado estrutural da ausência de um instrumento que torne o custo real da jornada cirúrgica visível e contratável para operadoras e prestadores simultaneamente.
O mercado de saúde suplementar brasileiro realizou 3,3 milhões de cirurgias em 2024 nos hospitais associados à Anahp, em um setor onde as despesas assistenciais totais atingiram R$ 273 bilhões e a margem EBITDA hospitalar recuou para 10,7% no segundo trimestre de 2025. Nesse contexto, operadoras e hospitais negociam o evento cirúrgico sem que nenhum dos dois lados disponha do custo real da jornada como instrumento de contratação. A análise de 4.800 protocolos cirúrgicos precificados demonstra que essa assimetria tem custo mensurável: entre R$ 500 e R$ 3.000 por procedimento em quatro categorias de complexidade, com saving crescente conforme a presença e o peso de OPMe no custo do evento.
A pressão financeira sobre o setor hospitalar privado acelerou entre 2023 e 2025. A glosa inicial, que representa o valor retido pelas operadoras sobre o faturamento hospitalar antes de qualquer negociação, avançou de 7,26% no primeiro trimestre de 2023 para 17% no primeiro trimestre de 2025, segundo o Observatório Anahp 2025. No mesmo período, a margem EBITDA dos hospitais recuou de 14% para 10,7%, enquanto o prazo médio de recebimento se aproximou de 73 a 79 dias contra 46 a 48 dias de pagamento a fornecedores, comprimindo o capital de giro de forma estrutural. A inflação médica registrou 16,9% em 2025, enquanto materiais hospitalares acumularam alta próxima de 14% entre 2023 e 2024.
O diagnóstico convencional atribui essa deterioração à assimetria de poder de negociação entre operadoras e prestadores, à defasagem das tabelas de remuneração e ao crescimento da utilização. Esses fatores existem e são relevantes. Mas há um mecanismo anterior a todos eles que permanece sem endereçamento sistemático no setor: operadoras e hospitais não têm o mesmo custo de referência para o mesmo evento cirúrgico. As operadoras remuneram por item, sem visibilidade do custo total da jornada. Os hospitais custeiam por departamento, sem visibilidade do custo real por procedimento. O resultado é um mercado de R$ 273 bilhões que negocia seu componente de maior complexidade financeira sem base técnica comum entre os dois lados.
O gap de 27 a 33 dias entre recebimento e pagamento não é variável de tesouraria. É consequência direta da ausência de base técnica para contestação de glosa: sem custo real por protocolo como referência, o hospital negocia cada glosa individualmente, estendendo o ciclo de recebimento sem reduzir o custo de produção.
| Categoria | % Volume | % Despesas | Multiplicador |
|---|---|---|---|
| Internações (incl. cirurgias) | 0,5% | 41,0% | 82x |
| Terapias | 2,1% | 8,0% | 3,8x |
| Exames complementares | 38,4% | 18,0% | 0,5x |
| Consultas ambulatoriais | 45,2% | 28,0% | 0,6x |
| Outros atendimentos | 13,8% | 5,0% | 0,4x |
O multiplicador 82x confirma que nenhuma iniciativa de eficiência assistencial produz impacto financeiro comparável ao controle do custo do evento cirúrgico. Reduzir 1% do custo de internações produz impacto financeiro equivalente a reduzir 82% do custo de qualquer outra categoria de procedimento em volume proporcional.
A estrutura de despesas dos hospitais Anahp confirma a concentração do risco financeiro no evento cirúrgico. OPMe respondeu por 7,30% da despesa total hospitalar em 2024, enquanto materiais representaram 5,15% adicional. Combinados com custo de pessoal em 39,03% e medicamentos em 11,78%, esses quatro componentes formam a espinha dorsal do custo da jornada cirúrgica, todos com dinâmica de preço independente da remuneração contratada com as operadoras. A receita bruta proveniente de OPMe representou 7,61% do total, sinalizando que a precificação desse componente segue defasada em relação ao custo incorrido.
OPMe e materiais são os únicos componentes de custo cirúrgico cujo valor unitário por evento é determinado pela escolha de protocolo, não pelo contrato com a operadora. Essa característica os torna simultaneamente o principal vetor de variação de custo não gerenciada e o principal vetor de saving quando o protocolo é precificado.
O mecanismo identificado no estudo sobre o Déficit Cirúrgico Estrutural tem implicação direta para a mensuração do saving cirúrgico: o valor do protocolo precificado não é fixo. Ele é modulado pelo custo/hora do centro cirúrgico, variável que reflete a taxa de ocupação da estrutura instalada. O DCE documentou que a parcela fixa do custo operacional do centro cirúrgico representa 85% ou mais do total, independentemente do volume realizado: uma sala em prontidão sem procedimento agendado incorre em custo equivalente a 85% a 95% do custo de uma sala em operação plena. Isso implica que hospitais com 30% de ocupação, a média observada na base, têm custo/hora de sala sistematicamente superior ao de hospitais com maior ocupação para o mesmo procedimento. O saving apurado nos 4.800 protocolos é líquido desse efeito: à medida que a ocupação cresce e o custo/hora cai, o saving composto dos dois mecanismos supera a soma das partes.
| Métrica | Valor documentado | Fonte |
|---|---|---|
| Custo médio mensal por CC (médio e grande porte) | R$ 1,8 milhão | Evodux 2024/2025 |
| Custo médio por sala por dia | R$ 60.000 | Evodux 2024/2025 |
| Receita média por sala por dia (contratos vigentes) | R$ 20.000 | Evodux 2024/2025 |
| Déficit por sala / dia | R$ 40.000 | Evodux 2024/2025 |
| Déficit por sala / mês | R$ 1,2 milhão | Evodux 2024/2025 |
| Déficit por sala / ano | R$ 14,4 milhões | Evodux 2024/2025 |
| Parcela fixa do custo em sala sem procedimento | ≥ 85% | Evodux 2024/2025; Childers CP, JAMA Surgery, 2018 |
O protocolo precificado que incorpora o custo/hora real do centro cirúrgico transforma a ociosidade de custo invisível em variável de negociação contratual. Operadoras que contratam com base nesse custo real deixam de remunerar a ineficiência do prestador. Prestadores que o conhecem deixam de absorvê-la como resultado operacional.
O mercado cirúrgico privado brasileiro opera com três desalinhamentos simultâneos que a pressão financeira torna visíveis, mas não resolve por si mesma. O primeiro é a assimetria de informação: operadoras acumulam anos de histórico de sinistro por procedimento, mas não têm o custo real de produção do hospital. Hospitais conhecem seu custo departamental, mas não o custo real por evento cirúrgico. Nenhum dos dois lados da negociação contratual dispõe da mesma base técnica.
O segundo desalinhamento é temporal: a glosa cresce enquanto a margem cai, o que indica que o mecanismo de ajuste do mercado é reativo e não resolve o problema de origem. Glosar mais não reduz o custo real do evento cirúrgico para o hospital. Pagar menos não melhora a visibilidade de custo para a operadora. Os dois lados perdem eficiência no processo e o custo de capital de giro cresce para o prestador sem que o custo assistencial caia para o pagador.
O terceiro desalinhamento é estrutural: a inflação médica de 16,9% em 2025, combinada com a alta de materiais hospitalares próxima de 14% entre 2023 e 2024, reflete a precificação fragmentada por item, sem referência de protocolo. Quando insumos são adquiridos sem padronização por procedimento, a variação de preço de cada item se acumula no custo do evento sem mecanismo de contenção. Os três desalinhamentos têm uma raiz comum: a ausência do protocolo precificado como unidade de análise econômica do evento cirúrgico.
A opacidade do custo cirúrgico tem uma causa estrutural precisa: a jornada é precificada por item, não por evento
A precificação por item fragmenta o custo da jornada cirúrgica em silos que nunca são somados como unidade econômica completa. O fee for service elimina o incentivo para padronizar insumos porque o hospital é remunerado independentemente do custo que incorre. Quando o modelo migra para pacote, essa ausência de padronização torna-se prejuízo imediato: 70% dos pacotes cirúrgicos geram resultado negativo para os hospitais porque 90% deles precisam de uma padronização de insumos que nunca foi realizada.
A jornada cirúrgica é composta por componentes de custo gerenciados em silos independentes: materiais e OPMe pelo setor de compras, hora de sala e equipe pelo centro cirúrgico, medicamentos pela farmácia, recuperação pós-anestésica pela enfermaria. Cada silo tem sua lógica de aquisição, seu responsável e sua métrica de controle. Nenhum sistema de gestão hospitalar convencional soma esses componentes como unidade econômica completa por procedimento. O resultado é que o custo real da jornada cirúrgica não existe como número estruturado em nenhum relatório de nenhuma das duas partes que negociam o contrato.
O modelo de remuneração por fee for service é o mecanismo que perpetua essa fragmentação. Quando o hospital é remunerado por item produzido, não há incentivo econômico para padronizar insumos, racionalizar conduta ou medir o custo total do evento. A variação de custo entre procedimentos idênticos realizados por cirurgiões diferentes, com insumos diferentes e tempos de sala diferentes, não afeta a receita. O hospital recebe pelo que produz, não pelo que gasta para produzir. A padronização, nesse modelo, é irrelevante para o resultado financeiro imediato.
A análise da base Evodux de 134 tipos de pacotes cirúrgicos quantifica o impacto dessa ausência de padronização. Hospitais sem protocolo precificado operam com custo até 40% superior ao de hospitais com protocolo padronizado em cirurgias com OPMe, e até 20% superior em cirurgias de média complexidade. Essa variação não decorre de diferença de qualidade assistencial nem de perfil epidemiológico distinto. Decorre exclusivamente da ausência de padronização de insumos e de definição de conduta por protocolo. O custo extra é integralmente absorvido pelo hospital como erosão de margem invisível.
A migração do fee for service para o modelo de pacotes torna esse custo invisível imediatamente visível. No pacote, o hospital recebe um valor fixo por evento independentemente do custo que incorre. A variação de insumo que no fee for service era irrelevante passa a ser diretamente responsável pelo resultado do procedimento. É por isso que 70% dos pacotes cirúrgicos geram prejuízo para os hospitais: a remuneração foi contratada sem que o custo real da jornada fosse conhecido, e 90% desses pacotes precisam de padronização de insumos que nunca foi realizada para que o resultado se torne positivo. O pacote não criou o problema. Tornou-o mensurável.
| Componente de custo da jornada | Silo de gestão | Incorporado? |
|---|---|---|
| Tempo real de sala: setup, cirurgia, limpeza e troca | Centro cirúrgico | Não |
| Hora-equipe desagregada por função e especialidade | Gestão de pessoas | Não |
| Consumo médio de insumos por via clínica e complexidade | Compras / almoxarifado | Não |
| OPMe por tipo de protocolo e complexidade do caso | Compras / CCIH | Não |
| Custo de esterilização por kit cirúrgico | CME | Não |
| Depreciação de equipamentos alocada por procedimento | Controladoria | Não |
| Variação de custo por gravidade e complexidade do caso | Assistencial / médico | Raramente |
| Custo de recuperação pós-anestésica e hotelaria | Enfermaria / hotelaria | Parcial |
Cada componente listado tem responsável, sistema e métrica próprios. Nenhum deles é somado automaticamente ao custo do evento no momento da negociação contratual. A precificação do pacote cirúrgico é feita sobre uma base que exclui sistematicamente os componentes de maior variabilidade e de maior impacto no resultado por procedimento.
| Vetor de variação | No fee for service | No pacote sem protocolo |
|---|---|---|
| Escolha de OPMe pelo cirurgião | Irrelevante para receita | Direto no resultado |
| Quantidade de insumos por procedimento | Repassada ao pagador | Absorvida pelo hospital |
| Tempo de sala acima do previsto | Faturado como hora adicional | Custo fixo não recuperável |
| Variação de conduta entre cirurgiões | Sem impacto financeiro direto | Margem diferente por cirurgião |
A variação de custo de até 40% não é produto de ineficiência operacional nem de diferença assistencial. É o custo acumulado de decisões clínicas e de compras que no fee for service eram financeiramente neutras para o hospital e que no pacote tornam-se diretamente determinantes do resultado por procedimento.
O pacote cirúrgico não cria o prejuízo. Torna mensurável um desequilíbrio que no fee for service era repassado ao pagador evento a evento. O hospital que migra para pacote sem padronizar insumos troca exposição difusa por prejuízo concentrado e visível. A padronização de insumos é a condição necessária para que qualquer pacote cirúrgico gere resultado positivo de forma consistente.
A transição do fee for service para o modelo de pacotes não é uma mudança de modelo comercial. É uma mudança na visibilidade do custo. No fee for service, a variação de insumo, de conduta e de tempo de sala é repassada ao pagador evento a evento, sem que o hospital precise conhecer o custo real de cada procedimento para manter seu resultado. No pacote, essa variação torna-se diretamente determinante da margem. O hospital que migra sem ter padronizado seus insumos e sem ter precificado sua jornada descobre, no resultado do mês seguinte, o custo acumulado de décadas de ausência metodológica.
Os 70% de pacotes cirúrgicos com resultado negativo não são produto de contratação inadequada nem de operadoras mal-intencionadas. São o resultado estrutural de uma assimetria de informação que o modelo de pacotes torna imediatamente visível: a operadora contratou com base em histórico de sinistro acumulado ao longo de anos. O hospital contratou com base em percepção de mercado sem custeio granular por protocolo. A diferença entre os dois lados da negociação não é poder. É dado.
Os 90% de pacotes que precisam de padronização de insumos para gerar resultado positivo indicam que a solução não está na renegociação do valor contratado. Está na redução do custo de produção por evento. Um pacote que hoje gera prejuízo com insumos não padronizados pode gerar resultado positivo com os mesmos valores contratados após a padronização, porque o custo real do evento cai abaixo da remuneração recebida. O saving não requer novo contrato. Requer nova metodologia de produção.
Quando a jornada é precificada como protocolo completo, dois vetores dominantes geram saving estrutural
O protocolo precificado não é o saving. É o instrumento que torna o saving visível e realizável. Sem ele, a variação de marca de OPMe entre cirurgiões e a variação de conduta entre procedimentos existem mas não são mensuráveis. Com ele, dois vetores independentes e complementares geram saving de 66% via padronização de insumos e 34% via escolha estruturada de protocolo, sobre a mesma jornada cirúrgica.
O saving cirúrgico estrutural não decorre de renegociação de contrato nem de redução de volume assistencial. Decorre da criação de uma unidade de análise que o mercado cirúrgico privado brasileiro não tem: o custo real por evento. Sem essa unidade, a variação de insumo entre cirurgiões para o mesmo procedimento, a diferença de conduta entre protocolos clinicamente equivalentes e o custo/hora de sala inflado pela ociosidade existem como dados dispersos no faturamento mensal, sem que nenhum gestor possa atribuí-los a um procedimento específico, a um cirurgião específico ou a uma decisão de compra específica.
O protocolo precificado cria essa unidade. Quando o custo real da jornada é expresso como um número por evento, dois vetores tornam-se imediatamente operáveis. O primeiro é a padronização de insumos: com o protocolo como referência, torna-se possível identificar qual cirurgião usa OPMe de marca diferente do padrão, qual kit cirúrgico contém itens em quantidade acima do necessário e qual volume consolidado de compras está fragmentado em pedidos individuais sem poder de negociação. O segundo é a escolha estruturada do tipo de protocolo: com o custo real por evento documentado, torna-se possível identificar variação injustificada de conduta entre cirurgiões para o mesmo diagnóstico e selecionar o protocolo de menor custo entre alternativas com equivalência clínica demonstrada.
Os dois vetores são tecnicamente independentes. Um hospital pode padronizar insumos sem alterar o protocolo e capturar 66% do saving potencial. Pode definir protocolo sem padronizar insumos e capturar 34%. Na prática, contudo, os dois vetores compartilham o mesmo pré-requisito: o protocolo precificado como instrumento de análise por evento. Sem ele, nenhum dos dois é ativável. O hospital que olha apenas o faturamento mensal vê o total do mês, não o custo por procedimento, não a variação por cirurgião, não o excesso por kit. A gestão opera sobre médias que escondem a variação onde o saving reside.
O saving de 0% sem protocolo precificado não indica ausência de variação. Indica ausência de instrumento para medi-la e atribuí-la por evento. A variação existe em todos os hospitais. O que difere é a capacidade de torná-la visível e, portanto, gerenciável.
| Característica do OPMe | Impacto na variação de custo |
|---|---|
| Escolha de marca por preferência do cirurgião, não por protocolo | Principal vetor de variação de custo por evento |
| Ausência de equivalência técnica documentada entre marcas | Impede substituição sem resistência clínica |
| Precificação individual por fornecedor sem referência de protocolo | Elimina poder de negociação por volume |
| Especificação de OPMe feita no ato cirúrgico, não no planejamento | Impede compra antecipada com desconto |
| Variação de complexidade do caso não refletida na especificação padrão | Gera uso de OPMe premium em casos que não requerem |
A concentração de 63% do saving de padronização em OPMe reflete uma característica estrutural do mercado cirúrgico brasileiro: a especificação de OPMe é feita pelo cirurgião no momento do procedimento, sem referência a protocolo institucional. O protocolo precificado transforma essa decisão individual em decisão institucional baseada em custo real por evento.
O Vetor 2, responsável por 34% do saving, atua sobre a variação de conduta entre cirurgiões para o mesmo diagnóstico. Em um hospital sem protocolo precificado, dois cirurgiões realizando a mesma cirurgia com o mesmo diagnóstico podem gerar custos totais distintos em função de diferenças de tempo de sala, de especificação de insumos e de conduta pós-operatória, sem que nenhum indicador de gestão convencional identifique essa variação como fonte de custo gerenciável. O faturamento mensal registra o total. O custo por cirurgião e por protocolo permanece invisível.
A eliminação dessa variação não requer alteração de conduta clínica nos casos em que a diferença é justificada por complexidade do caso ou por perfil do paciente. Requer apenas que a variação sem justificativa clínica documentada seja identificada e endereçada. O protocolo precificado cria o instrumento para essa identificação: quando o custo real por evento é conhecido, a variação entre cirurgiões para o mesmo procedimento torna-se um número, não uma percepção.
O protocolo precificado não gera saving por si mesmo. Gera a condição para que os dois vetores sejam identificados, mensurados e endereçados. Hospitais que implantaram o protocolo e ativaram apenas o Vetor 1 capturaram 66% do saving potencial. Os que ativaram os dois vetores simultaneamente capturaram o saving estrutural completo por evento.
A decomposição do saving em dois vetores com proporções documentadas tem uma implicação prática imediata para a sequência de implantação. O Vetor 1, padronização de insumos, responde por 66% do saving e atua sobre decisões de compra e especificação, não sobre conduta clínica. É o vetor de menor resistência institucional e de mais rápida implementação. O Vetor 2, escolha de protocolo, responde por 34% e envolve padronização de conduta entre cirurgiões, processo que requer engajamento do corpo clínico e validação assistencial. A sequência natural é Vetor 1 primeiro, Vetor 2 em seguida, com o protocolo precificado como instrumento comum que viabiliza os dois.
A concentração de 63% do saving do Vetor 1 em OPMe tem implicação específica para hospitais com alta proporção de cirurgias com OPMe no mix assistencial. Para esses hospitais, a padronização de marca e especificação de OPMe é a intervenção de maior retorno unitário disponível sem alteração de contrato com operadoras. O saving é gerado internamente, por redução do custo de produção, e não requer renegociação de remuneração para ser realizado.
O Vetor 2 tem implicação específica para operadoras. A variação de conduta entre cirurgiões para o mesmo diagnóstico é capturável na base de sinistro da operadora antes de ser visível no hospital. Operadoras que cruzam sua base histórica de sinistro com protocolos precificados de referência conseguem identificar prestadores com variação de custo acima do esperado por procedimento e usar esse dado como base para renegociação contratual ancorada em evidência, não em posição de mercado.
O saving cresce com o peso de OPMe e atinge escala bilionária
O saving por evento não é um número único. É uma função da complexidade do procedimento e do peso de OPMe no custo total. Quanto maior a proporção de OPMe, maior a alavanca do Vetor 1 e maior o saving absoluto por evento. A análise de 4.800 protocolos documentou quatro categorias com saving médio de R$ 500 a R$ 3.000, aplicáveis sobre um mercado de 3,3 milhões de cirurgias anuais nos hospitais Anahp.
O saving cirúrgico estrutural não é uniforme entre especialidades. Sua magnitude é determinada por dois fatores simultâneos: a complexidade do procedimento, que define o custo base da jornada, e a proporção de OPMe no custo total do evento, que define o tamanho da alavanca disponível para o Vetor 1. Em procedimentos de baixa complexidade sem OPMe, a alavanca é pequena e o saving médio observado na base Evodux é de R$ 500 por evento. Em cirurgias hemodinâmicas e vasculares, onde OPMe representa até 82% do custo total, a alavanca é máxima e o saving médio chega a R$ 3.000 por evento.
A relação entre peso de OPMe e magnitude do saving é direta e documentada. Em cirurgias de grande porte com OPMe, onde esse componente responde por até 75% do custo total, o saving médio observado é de R$ 2.000 por evento. Em cirurgias de média e alta complexidade sem OPMe, onde o Vetor 1 atua exclusivamente sobre insumos não implantáveis, o saving médio é de R$ 1.200. Em cirurgias de baixa complexidade sem OPMe, o saving de R$ 500 representa, em termos percentuais, aproximadamente 17,8% do custo de um procedimento como a herniorrafia, referência de R$ 2.800 na base Evodux. Essa proporção confirma que o saving é estrutural e não marginal em nenhuma das quatro categorias.
A projeção desse saving sobre o volume de 3,3 milhões de cirurgias realizadas pelos hospitais Anahp em 2024 produz um envelope de impacto sistêmico entre R$ 1,6 bilhão e R$ 9,9 bilhões anuais. O limite inferior aplica o saving de R$ 500 sobre todo o volume, o limite superior aplica R$ 3.000. O cenário realista situa-se entre esses extremos em função do mix de especialidades de cada instituição. Para contextualização: as despesas assistenciais totais da saúde suplementar atingiram R$ 273 bilhões em 2024, dos quais 41% concentrados em internações. O saving potencial cirúrgico representa entre 0,6% e 3,6% das despesas assistenciais totais do setor, capturável sem alteração de modelo assistencial e sem investimento de capital.
O saving cresce proporcionalmente ao peso de OPMe no custo total do evento porque OPMe concentra 63% do saving do Vetor 1. Categorias com OPMe intensivo têm alavanca maior e saving absoluto maior, independentemente do valor contratado com a operadora.
A correlação entre peso de OPMe e saving por evento é direta e documentada na base de 4.800 protocolos. Instituições com mix assistencial concentrado em hemodinâmica e cirurgia vascular têm o maior potencial de saving por evento e, portanto, o maior retorno unitário sobre a implantação do protocolo precificado.
| Referência de mercado | Valor | Saving potencial como % do valor |
|---|---|---|
| Despesas assistenciais totais saúde suplementar, 2024 | R$ 273 bilhões | 0,6% a 3,6% |
| Internações: 41% das despesas assistenciais totais | R$ 112 bilhões | 1,4% a 8,8% |
| Receita bruta hospitais Anahp, 2024 | R$ 66,4 bilhões | 2,4% a 14,9% |
| Saving potencial sobre volume Anahp | R$ 1,6 bi a R$ 9,9 bi | capturável sem novo contrato |
A distribuição do saving em quatro categorias tem uma implicação direta para a priorização de implantação. Hospitais com mix assistencial concentrado em hemodinâmica, cardiologia intervencionista e cirurgia vascular operam no quadrante de maior saving por evento e, portanto, têm o maior retorno unitário sobre a implantação do protocolo precificado. Para essas instituições, cada procedimento sem protocolo representa uma perda média de R$ 3.000 de saving não capturado. Em um hospital com 200 procedimentos hemodinâmicos por mês, o custo de ausência de protocolo é de R$ 600 mil mensais.
Para operadoras, a distribuição por categoria tem implicação contratual direta. O saving de R$ 2.000 a R$ 3.000 por evento em procedimentos com OPMe intensivo é realizável pelo prestador sem renegociação de remuneração, porque decorre de redução de custo de produção, não de corte de receita. Uma operadora que contratar com prestadores que implantaram protocolo precificado nas categorias de alta complexidade está contratando com parceiros cujo custo de produção é até R$ 3.000 por evento menor do que o de prestadores sem protocolo, para o mesmo procedimento e com a mesma remuneração contratada. Essa diferença é margem para o prestador, não para a operadora. A operadora que não captura isso via precificação de pacote está deixando poder de negociação contratual sem base técnica.
O saving potencial de R$ 1,6 bilhão a R$ 9,9 bilhões sobre o volume Anahp representa entre 2,4% e 14,9% da receita bruta total dos hospitais associados em 2024. Capturado sem alteração de modelo assistencial e sem investimento de capital, esse saving é a maior alavanca de resultado disponível para o setor hospitalar privado no ciclo atual de compressão de margem.
Para as operadoras, o protocolo precificado converte sinistro variável em custo contratável
Sem protocolo de referência, a operadora está exposta simultaneamente a variação de frequência e variação de severidade no evento cirúrgico. O protocolo precificado resolve o segundo risco: quando a remuneração é ancorada no custo real de produção, a variação de custo por evento deixa de ser risco da operadora e passa a ser responsabilidade de gestão do prestador. Uma operadora com 70 mil beneficiários registrou saving de R$ 32 milhões em 13 meses após implantar 450 protocolos de alto custo precificados.
As despesas assistenciais das operadoras de saúde suplementar atingiram R$ 256,8 bilhões em 2024, com índice de sinistralidade de aproximadamente 82%. Internações representaram 0,47% do total de eventos autorizados e concentraram 40% das despesas, equivalente a R$ 102,7 bilhões. Nenhuma outra categoria de procedimento combina baixo volume com tamanha concentração de despesa. Para as operadoras, o evento cirúrgico é o componente de maior risco financeiro unitário do sistema: cada autorização expõe a operadora simultaneamente a variação de frequência, quantas cirurgias ocorrem no período, e variação de severidade, quanto custa cada uma.
A gestão convencional de sinistro cirúrgico nas operadoras atua sobre o primeiro risco com razoável eficiência: autorização prévia, protocolos de auditoria e controle de acesso reduzem a frequência de procedimentos não justificados clinicamente. O segundo risco, a variação de severidade por evento, permanece estruturalmente fora do controle da operadora porque depende de informação que ela não tem: o custo real de produção do protocolo no prestador. Sem esse dado, a operadora não consegue distinguir se um evento de alto custo reflete complexidade clínica justificada ou ausência de padronização de insumos no prestador. Os dois casos geram o mesmo valor na nota fiscal. Apenas um deles é gerenciável.
O protocolo precificado resolve essa assimetria. Quando a operadora contrata com base no custo real de produção do protocolo, ela passa a dispor de uma referência técnica para avaliar a variação de custo por evento. Um procedimento faturado acima do protocolo precificado de referência tem variação explicável por complexidade documentada ou variação não justificada por ausência de padronização. Essa distinção, que no modelo de fee for service por item era impossível, torna-se operável quando o protocolo precificado existe como base contratual comum entre as duas partes.
A operadora que controla frequência mas não controla severidade gerencia metade do risco cirúrgico. O protocolo precificado é o instrumento que torna a severidade contratável: quando o custo real de produção é conhecido, a variação por evento torna-se auditável e negociável. Nota: o multiplicador 85x refere-se a internações totais (clínicas e cirúrgicas) conforme classificação ANS. O peso financeiro do evento cirúrgico dentro das internações é ainda mais concentrado em procedimentos de alta complexidade com OPMe.
No pacote com protocolo precificado, a operadora contrata um resultado por evento, não um processo. A variação de custo por ausência de padronização no prestador deixa de ser sinistro da operadora e passa a ser margem não capturada pelo prestador. Os incentivos se alinham: o prestador que padroniza insumos melhora sua margem. A operadora que contrata com referência de protocolo reduz sua exposição a severidade não auditável.
| Indicador derivado | Valor | Base de cálculo |
|---|---|---|
| Saving médio por protocolo implantado ao ano | R$ 71.111 | R$ 32M / 450 protocolos / (13/12) |
| Saving por beneficiário ao ano | R$ 457 | R$ 32M / 70.000 / (13/12) |
| Saving mensal sobre a base | R$ 2,46 milhões | R$ 32M / 13 meses |
| Período de implantação e mensuração | 13 meses | Base Evodux 2024/2025 |
Os 450 protocolos implantados cobrem procedimentos de alto custo, categoria que concentra a maior parte da despesa assistencial por evento. O saving de R$ 71.111 por protocolo ao ano reflete a magnitude da variação de custo não gerenciada que o protocolo precificado torna visível e eliminável.
O saving de R$ 32 milhões em 13 meses sobre uma base de 70 mil beneficiários não é resultado de renegociação de tabela nem de redução de cobertura. É resultado da substituição de sinistro variável por custo contratável em 450 protocolos de alto custo. Essa distinção é fundamental para o próximo ciclo de negociação entre operadoras e prestadores: a operadora que contratar com base em protocolo precificado não está pagando menos pelo mesmo serviço. Está pagando pelo custo real de produção de um protocolo padronizado, sem financiar a variação de insumo que no modelo anterior era invisível e irrastreável.
O saving de R$ 457 por beneficiário ao ano representa uma redução de sinistralidade que não requer aumento de prêmio nem redução de cobertura para ser sustentada. Realizado de forma consistente, tem impacto direto sobre a capacidade da operadora de manter índice de sinistralidade abaixo de 80% sem pressão sobre o reajuste anual.
A implicação para operadoras de maior porte é proporcional ao tamanho da carteira e à densidade de protocolos implantados. O saving de R$ 457 por beneficiário ao ano, documentado no case, escala com o volume de beneficiários e com o número de protocolos de alto custo precificados, desde que o perfil de carteira e a densidade de implantação sejam equivalentes. O protocolo precificado não é uma solução de nicho para operadoras de médio porte. É uma alavanca de resultado que o mercado suplementar como um todo ainda não capturou na escala que os dados indicam ser possível.
Para os hospitais, o protocolo precificado reverte o déficit operacional do centro cirúrgico em lucratividade
O hospital sem protocolo precificado opera com custo por evento sistematicamente acima da remuneração contratada, déficit documentado em R$ 4.750 por procedimento em 70% dos pacotes avaliados. O protocolo precificado reverte esse desequilíbrio exclusivamente pelo lado do custo: padronização de insumos e escolha de protocolo reduzem o custo unitário por evento sem alteração de contrato com operadoras. Um hospital de 180 leitos no Nordeste implantou 872 protocolos precificados e reverteu margem de -16% para +14% em 16 meses, saving acumulado de R$ 12 milhões, sem modificar nenhum contrato vigente.
O Déficit Cirúrgico Estrutural documentado no primeiro estudo desta série demonstrou que 70% dos pacotes cirúrgicos avaliados apresentam remuneração inferior ao custo real de produção, com gap médio de R$ 4.750 por procedimento. Esse gap persiste porque o hospital não tem o custo real da jornada como número por evento: sem essa base, cada renegociação contratual com operadoras parte de percepção de mercado, não de evidência técnica. O protocolo precificado cria essa base. E ao criá-la, torna imediatamente visível que o gap não precisa ser fechado por renegociação de contrato. Pode ser fechado por redução de custo de produção.
A redução de custo opera pelos dois vetores da Seção 3: padronização de insumos, responsável por 66% do saving, e escolha estruturada de protocolo, responsável pelos 34% restantes. Em cirurgias com OPMe, onde esse componente responde por até 75% do custo total, a padronização de marca e especificação elimina a variação de custo por cirurgião e converte decisão individual em decisão institucional baseada em custo real por evento. O resultado não é uma redução marginal de despesa. É a reversão do desequilíbrio estrutural entre custo de produção e remuneração contratada.
A reversão ocorre sem alteração de contrato porque o mecanismo de geração de saving é interno ao hospital. A operadora continua remunerando o mesmo procedimento pelo mesmo valor. O que muda é o custo que o hospital incorre para produzir esse procedimento. Quando o custo cai abaixo da remuneração contratada, o evento cirúrgico passa de gerador de resultado negativo a gerador de margem positiva. O contrato não muda. O custo de produção muda.
O Movimento 2, renegociação contratual com base no custo real documentado, não é pré-requisito para o saving inicial. O Movimento 1 gera saving imediato ao reduzir o custo abaixo da remuneração vigente. O Movimento 2 amplia o saving em ciclos posteriores ao realinhar a remuneração ao custo real de produção. A sequência natural é Movimento 1 primeiro, Movimento 2 quando o protocolo precificado estiver consolidado como referência contratual.
A reversão de 30 pontos percentuais de margem decorre exclusivamente de redução de custo de produção. Nenhum contrato com operadoras foi alterado no período. O saving de R$ 12 milhões acumulado em 16 meses representa a diferença entre o custo de produção com insumos não padronizados e o custo com protocolos precificados implantados.
A reversão de margem de -16% para +14% em 16 meses sem alteração de contratos demonstra que o desequilíbrio financeiro do centro cirúrgico privado não é primariamente um problema de remuneração inadequada. É um problema de custo de produção não gerenciado. O hospital que parte para a renegociação contratual sem ter reduzido seu custo de produção via protocolo precificado está negociando a partir de uma posição estruturalmente fraca: não tem o dado que provaria que a remuneração atual é insuficiente, e tampouco tem o dado que mostraria que a remuneração atual seria suficiente se o custo fosse gerenciado.
O saving de R$ 12 milhões em 16 meses sobre um hospital de 180 leitos representa uma transformação de resultado que nenhuma renegociação de tabela produziria no mesmo prazo. Na base de hospitais acompanhados pela Evodux, renegociações contratuais com operadoras raramente produzem resultado no mesmo ciclo em que o custo de produção cresce, porque dependem de aprovação da operadora e de evidência técnica que o hospital sem protocolo precificado não tem. A redução de custo via protocolo atua no mês seguinte à implantação e não depende de aprovação externa.
A implicação para o setor hospitalar privado como um todo é direta: a margem EBITDA de 10,7% documentada pelo Observatório Anahp 2025 e a glosa inicial de 17% no primeiro trimestre de 2025 são sintomas de um setor que tenta resolver pelo lado da receita um problema que tem solução pelo lado do custo. O protocolo precificado é a alavanca de resultado de maior retorno unitário disponível para hospitais privados no ciclo atual, realizável sem investimento de capital e sem alteração de modelo assistencial.
O saving cirúrgico estrutural é o maior vetor de eficiência não capturado no setor
O que os 4.800 protocolos cirúrgicos precificados revelam sobre o potencial sistêmico ainda não capturado e o que muda quando operadoras e hospitais operam com o mesmo protocolo de referência.
O envelhecimento populacional e o aumento da complexidade assistencial documentados pelo Observatório Anahp 2026 configuram a trajetória do mercado cirúrgico privado para a próxima década. A população brasileira com 65 anos ou mais passou de 5,84% em 2000 para 10,92% em 2022, com expectativa de vida de 76,8 anos em 2025 e taxa de fecundidade de 1,55 filho por mulher. Esse perfil demográfico amplia sistematicamente a demanda por procedimentos cirúrgicos de alta complexidade com OPMe, exatamente a categoria de maior saving unitário documentada neste estudo: R$ 3.000 por evento em hemodinâmica e vascular, onde OPMe representa até 82% do custo total. O mercado que não tiver protocolo precificado como instrumento de gestão enfrentará pressão de custo crescente sobre a categoria de maior risco financeiro unitário do sistema.
As despesas com saúde atingiram R$ 1,16 trilhão em 2025, equivalente a 9% do PIB brasileiro, com R$ 667,90 bilhões provenientes de recursos privados. Nesse contexto, 69,35% dos hospitais associados à Anahp já operam com modelos alternativos ao fee for service, e 14,52% afirmam que mais da metade de sua receita bruta provém de modelos diferentes do pagamento tradicional por procedimento. A migração para modelos alternativos está em curso. O problema documentado neste estudo é que essa migração ocorre, na maior parte dos casos, sem protocolo precificado como base contratual. Os hospitais que adotam pacotes sem protocolo precificado replicam em escala maior o desequilíbrio demonstrado na Seção 2: 70% dos pacotes cirúrgicos geram resultado negativo porque 90% precisam de padronização de insumos que nunca foi realizada.
O saving capturado pelo hospital via protocolo precificado é resultado operacional do hospital, não da operadora. A remuneração contratada permanece a mesma. O que muda é o custo de produção por evento, que cai abaixo da remuneração quando insumos são padronizados e protocolo é estruturado. A repactuação contratual com operadoras, quando ocorre, é um segundo movimento que usa o custo real documentado como base técnica para negociar pacotes cirúrgicos com remuneração alinhada ao custo real de produção. Os dois movimentos são independentes. O primeiro não requer aprovação da operadora. O segundo só é possível quando o primeiro já foi realizado.
O protocolo precificado é o instrumento que torna o saving visível, contratável e auditável. Sem ele, os três mecanismos acima permanecem fora do alcance operacional de operadoras e prestadores. Com ele, os incentivos de ambos os lados se alinham pela primeira vez na lógica de mercado cirúrgico suplementar brasileiro.
O saving potencial de R$ 1,6 bilhão a R$ 9,9 bilhões calculado sobre as 3,3 milhões de cirurgias dos hospitais Anahp representa apenas a base verificável com os dados disponíveis. Os hospitais Anahp representam 13,46% do total de leitos privados do Brasil. O mercado cirúrgico suplementar como um todo opera em escala significativamente superior. O saving sistêmico não capturado pelo setor é proporcional ao gap entre o volume total de procedimentos realizados e o volume de procedimentos realizados com protocolo precificado como referência contratual. Esse gap, hoje, é próximo de 100%.
A migração de 69,35% dos hospitais associados à Anahp para modelos alternativos ao fee for service, documentada pelo Observatório Anahp 2026, confirma que o mercado está se movendo na direção certa. O problema é a velocidade e a sequência. Hospitais que migram para pacotes sem protocolo precificado chegam ao modelo correto pelo caminho errado: aceitam o risco de severidade do pacote sem ter construído o instrumento que torna esse risco gerenciável. O resultado é o documentado neste estudo: 70% dos pacotes cirúrgicos geram resultado negativo.
A base de 4.800 protocolos cirúrgicos precificados da Evodux representa a maior base proprietária de custeio granular por via clínica disponível no mercado suplementar brasileiro. O que ela revela não é apenas o saving por categoria. Revela que o custo real de produção do evento cirúrgico pode ser conhecido, padronizado e gerenciado. E que o mercado que operar com esse conhecimento como instrumento de contratação terá vantagem estrutural sobre o que não operar.
Fontes primárias e secundárias
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