Operadoras e prestadores viveram ciclos opostos entre 2022 e 2025. A verticalização explica os dois.
Cinco conclusões sobre a economia da verticalização
Sumário
A verticalização reorganizou a geometria de poder da cadeia
Quando uma operadora integra rede assistencial própria em escala suficiente para substituir o prestador credenciado, ela não reduz custo assistencial apenas. Ela elimina a insubstituibilidade que sustentava o poder de barganha do prestador independente.
A verticalização na saúde suplementar brasileira não é um fenômeno novo. O que distingue o ciclo iniciado em 2021 de todos os anteriores é a escala e a velocidade com que o controle acionário sobre ativos assistenciais se concentrou em poucos grupos. Entre 2021 e 2022, o setor registrou cerca de 150 operações relevantes de fusão e aquisição. O resultado foi a formação de ecossistemas que reúnem operadora, hospital, laboratório e diagnóstico por imagem sob o mesmo grupo econômico, com escala de rede própria suficiente para substituir o prestador credenciado nos principais mercados regionais do país, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, onde a penetração de planos supera 25% da população. A integração entre o maior grupo hospitalar privado e uma das maiores seguradoras de saúde consolidou, pela primeira vez em escala relevante, capacidade assistencial e gestão de risco financeiro sob o mesmo controle acionário.
O mecanismo pelo qual essa concentração altera a geometria de poder da cadeia opera em dois estágios que se reforçam mutuamente. No primeiro, a operadora verticalizada redireciona o fluxo de beneficiários para rede própria, reduzindo o volume de autorizações destinado ao prestador credenciado independente sem que qualquer decisão operacional desse prestador justifique a perda. A queda de volume não é sinalização de desempenho. É consequência direta da expansão da rede própria da operadora. No segundo estágio, o prestador que permanece credenciado passa a negociar em posição estruturalmente mais fraca, porque sua relevância relativa dentro da rede diminuiu. Um pagador que representa 90% da receita do prestador e que simultaneamente desenvolve alternativa própria não negocia como parceiro. Negocia como comprador com saída disponível.
A diferença entre essas duas posições de negociação é o que determina, na prática, prazo de pagamento, taxa de glosa e volume de descredenciamento seletivo. O que o período 2022 a 2025 revela não é uma série de decisões comerciais independentes. É a expressão sistemática de um poder de barganha que a verticalização produziu e que a densidade de rede própria acumulada torna estruturalmente permanente.
Três expressões do mesmo mecanismo: glosas, atrasos e retenção de OPMe
A Seção 1 demonstrou que a verticalização converteu o poder de rede em poder de barganha, eliminando a insubstituibilidade do prestador independente. Esta seção quantifica como esse poder se manifesta operacionalmente em três instrumentos simultâneos de transferência de capital de giro.
Glosas, extensão de prazo e retenção de faturamento de OPMe não são três problemas operacionais distintos. São três instrumentos do mesmo mecanismo de transferência compulsória de capital de giro, todos viabilizados pela mesma causa: a assimetria de barganha que a verticalização produziu.
A glosa hospitalar cumpriu historicamente uma função legítima: verificar a consistência técnica e administrativa das contas. O patamar de referência do setor, entre 3% e 5% da receita bruta, refletia essa função de auditoria. O que os dados de 2022 a 2025 revelam é a conversão da glosa em instrumento de gestão de caixa. A taxa de glosa inicial saiu de 3,5% em 2019 para 9% em 2022, atingiu 11,89% em 2023, 15,89% em 2024 e 17% no primeiro trimestre de 2025. O dado que demonstra a natureza do mecanismo não é a taxa de glosa em si. É a taxa aceita ao final do processo de contestação: 1,96% em 2024. De cada R$ 100 glosados, apenas R$ 1,96 correspondiam a cobrança efetivamente indevida. O restante era pagamento devido, retido temporariamente no caixa da operadora.
O segundo instrumento opera pelo prazo. O intervalo entre a prestação do serviço e o recebimento pelo hospital saiu de um padrão de 60 a 70 dias para patamares de 73 a 79 dias em 2023 e até 120 dias em parte dos contratos em 2024. O ponto analítico relevante é o diferencial entre o prazo de recebimento do hospital e o prazo de pagamento do hospital a seus próprios fornecedores, que permaneceu entre 46 e 48 dias. Esse gap de 25 a 30 dias representa capital de giro financiado compulsoriamente pelo prestador em favor da operadora, sem contrapartida contratual e sem remuneração pelo custo de carregamento. Em ambiente de Selic acima de 10% ao ano, esse custo invisível corrói a margem operacional de forma contínua e silenciosa.
O terceiro instrumento opera no elo imediatamente anterior ao hospital: os fornecedores de órteses, próteses e materiais especiais. O valor total de faturas represadas, glosadas ou inadimplidas nesse segmento atingiu R$ 4,587 bilhões no levantamento de 2025 da ABRAIDI, equivalente a 36% do faturamento das empresas associadas. Desse total, R$ 2,2 bilhões correspondiam a produtos já utilizados em cirurgias autorizadas, cujo faturamento foi bloqueado por impasse administrativo posterior ao procedimento. O produto foi entregue, a cirurgia foi realizada, a autorização prévia existia. O pagamento não ocorreu. Os três instrumentos convergem para o mesmo ponto de chegada: a transferência de risco financeiro do ecossistema integrado para os elos independentes da cadeia.
A assimetria de resultados: dois ciclos, um mecanismo
As seções anteriores demonstraram o mecanismo pelo qual a verticalização redistribuiu poder de barganha e os três instrumentos pelos quais esse poder se converte em transferência de capital de giro. Esta seção demonstra que os ciclos financeiros opostos das operadoras e dos prestadores entre 2022 e 2025 são a expressão agregada desse mesmo mecanismo.
A recuperação financeira das operadoras e a compressão dos prestadores entre 2022 e 2025 não são fenômenos paralelos com causas distintas. A margem não desapareceu da cadeia de saúde suplementar. Mudou de posição dentro dela.
Em 2022, as operadoras registraram resultado líquido próximo de zero, consequência da retomada de utilização pós-pandemia sobre uma base de precificação defasada. A resposta do setor foi estrutural: recomposição de mensalidades acima da variação das despesas assistenciais, intensificação das glosas, extensão de prazos e descredenciamento seletivo. Esses são precisamente os instrumentos descritos na Seção 2. O lucro líquido do setor saiu de R$ 4,1 bilhões em 2023 para R$ 11,1 bilhões em 2024 e R$ 24,4 bilhões em 2025, com as operadoras de grande porte respondendo por R$ 19,9 bilhões desse total, mais que o dobro do ano anterior.
A eficiência operacional assistencial dos hospitais melhorou no mesmo período em que sua margem financeira caiu. A taxa de ocupação cresceu de 76,85% em 2023 para 78,97% em 2024. O tempo médio de permanência caiu de 4,61 dias em 2021 para 3,99 dias em 2024. A mortalidade operatória recuou de 0,37% para 0,27%. Com todos esses indicadores em melhora, a margem EBITDA hospitalar caiu de 14% no 2T de 2023 para 10,74% no 2T de 2025, o menor patamar dos últimos quatro anos. A deterioração financeira não tem origem dentro do hospital.
A taxa de glosa aceita ao final do processo, de apenas 1,96% em 2024, confirma essa leitura. Uma taxa que ultrapassa 15% da receita bruta com menos de 2% de sustentação ao final não é evidência de ineficiência do prestador. É evidência de que a glosa funciona como instrumento de retenção temporária de caixa, viabilizado pela assimetria que impede o prestador de recusar o mecanismo sem perder o credenciamento.
Os dados desta seção estabelecem que o ciclo de resultados das operadoras e o ciclo de compressão dos prestadores têm a mesma causa e operam pelo mesmo mecanismo. A seção seguinte demonstra por que esse mecanismo atinge com intensidade desproporcional o prestador independente de pequeno e médio porte.
O prestador independente sem instrumento de negociação
A assimetria demonstrada nas seções anteriores não atinge todos os prestadores com a mesma intensidade. O prestador independente de pequeno e médio porte é o elo com menor capacidade de absorvê-la, porque opera sem escala suficiente, sem alternativa de canal e sem insubstituibilidade dentro da rede das grandes operadoras.
Quando 65% dos beneficiários estão em cinco grupos e a rede própria desses grupos cobre todo o território nacional, o prestador regional que perde dois credenciamentos não perde uma conta. Perde a viabilidade. Esse é o ponto que separa uma crise de gestão de uma crise de posição estrutural.
A estrutura do mercado hospitalar brasileiro amplifica essa vulnerabilidade. O país contava, ao final de 2024, com pouco mais de 6.500 hospitais gerais, com média de 77,8 leitos por unidade. Os custos fixos representam entre 60% e 70% dos custos totais de um hospital, e a diluição desses custos exige escala. O prestador de pequeno porte opera com estrutura de custo proporcionalmente mais pesada e menor relevância relativa dentro da rede de qualquer operadora de médio ou grande porte. Relevância relativa é o único ativo de negociação que o prestador independente possui, e ele se deprecia sistematicamente à medida que a rede própria das operadoras cresce.
O descredenciamento seletivo torna esse mecanismo concreto. Em 2023, 60% dos hospitais pesquisados pela Anahp sofreram descredenciamento de serviços específicos. O descredenciamento seletivo não elimina o prestador da rede: remove os serviços de maior volume ou rentabilidade, reduzindo a receita sem reduzir os custos fixos. Para o prestador de pequeno porte, essa assimetria entre receita variável e custo fixo é a expressão financeira da crise de posição.
A pesquisa Anahp de novembro de 2024, com 94 hospitais, registrou nota 4,47 de 5,0 para o nível de preocupação com a relação com as operadoras, acima de ocupação, EBITDA planejado e gestão de custos. O prestador privado brasileiro identificou corretamente onde está o risco central do seu modelo. O risco não é operacional. É estrutural. E está fora do perímetro que as ferramentas tradicionais de gestão alcançam.
Para a maioria dos prestadores independentes de pequeno e médio porte no ciclo atual, a terceira saída, permanecer dependente operando como subcapacidade do ecossistema, é a hipótese de fato em curso. Não por escolha estratégica, mas por ausência de capital, tempo e posicionamento para executar as outras duas.
Por que o próximo ciclo não reverte
As quatro seções anteriores demonstraram o mecanismo, os instrumentos, a assimetria de resultados e a posição estrutural do prestador independente. Esta seção demonstra por que esse quadro não se altera com a melhora do ciclo econômico: os fatores que sustentam a assimetria são estruturais e se aprofundam de forma independente do desempenho financeiro das operadoras.
A assimetria de barganha produzida pela verticalização é estrutural, não cíclica. O ativo que a sustenta, a densidade de rede própria acumulada pelos grandes ecossistemas, não se deprecia com a melhora do ambiente econômico. O próximo ciclo favorável para os prestadores não elimina o poder de substituição que a rede própria representa. Apenas reduz a urgência com que ele é exercido.
A distinção entre assimetria cíclica e assimetria estrutural é o ponto analítico central desta seção. Uma assimetria cíclica existe enquanto o ciclo que a gerou persiste. Quando as operadoras recuperaram margens entre 2022 e 2025, seria razoável esperar que as condições de pagamento aos prestadores melhorassem de forma proporcional. Não melhoraram. A margem EBITDA hospitalar atingiu seu menor patamar dos últimos quatro anos no segundo trimestre de 2025, exatamente quando o setor de operadoras registrava lucro histórico. Esse descompasso não é anomalia. É a demonstração empírica de que a causa da compressão dos prestadores não é o ciclo financeiro das operadoras. É a posição estrutural que a verticalização criou e que permanece independentemente do ciclo.
O novo ciclo de M&A iniciado em 2024 e 2025 aprofunda essa estrutura em vez de revertê-la. O setor registrou 22 operações de fusão e aquisição entre hospitais e laboratórios nos primeiros nove meses de 2025, alta de 37% em relação ao mesmo período de 2024, segundo a KPMG. O movimento dominante não é de consolidação horizontal como em 2021. É de integração vertical: operadoras e prestadores construindo ecossistemas mais coesos por meio de joint ventures, parcerias operacionais e aquisições estratégicas. Cada nova operação de integração vertical reduz o espaço de mercado disponível para o prestador independente e aumenta a densidade de rede própria dos grupos que já detêm poder de barganha, tornando o mercado progressivamente menos reversível para quem permanece fora dos ecossistemas.
O dado regulatório confirma a direção estrutural. Nos planos individuais e familiares, a ANS registrou tendência crescente de concentração de mercado ao longo da série histórica, com aumento do percentual de mercados relevantes mais concentrados. Três operadoras concentraram 49% do lucro agregado do setor em 2025. Quando o lucro se concentra, o investimento em expansão de rede própria se concentra nos mesmos grupos. O prestador independente que negocia hoje em um mercado regional enfrenta, no horizonte de dois a três anos, um mercado ainda mais concentrado no lado comprador do que o mercado atual. A trajetória é verificável e a direção é conhecida.
O próximo ciclo econômico favorável não reequilibra essa estrutura. Ele apenas reduz a urgência com que o poder de barganha dos ecossistemas verticalizados é exercido. A Seção 6 traduz esse diagnóstico em indicadores de gestão concretos para os prestadores e operadoras que precisam tomar decisões no ciclo atual.
Perspectiva Evodux: o que esse fenômeno exige como indicador de gestão
As cinco seções anteriores estabeleceram o mecanismo, os instrumentos, a assimetria de resultados, a posição estrutural do prestador independente e os fatores que tornam essa assimetria permanente. Esta seção traduz esse diagnóstico em perguntas de gestão concretas, com o referencial analítico que a Evodux tem desenvolvido para quantificá-las.
O prestador independente que não reconstrói sua posição estratégica a partir do reconhecimento dessa estrutura continuará operando como subcapacidade de um ecossistema que define unilateralmente preço, prazo e volume. O primeiro passo não é operacional. É analítico: entender com precisão qual é a exposição real do seu modelo de receita à assimetria documentada nesta análise.
A maioria dos prestadores independentes monitora seus indicadores financeiros com granularidade adequada sobre o lado dos custos: custo por procedimento, custo de pessoal, custo de OPMe, EBITDA por unidade. O que raramente está estruturado como indicador de gestão é o lado da receita sob o ângulo da assimetria de barganha. Qual percentual da receita está concentrado em operadoras que possuem rede própria capaz de substituir os serviços prestados. Qual a tendência de glosa por operadora nos últimos oito trimestres. Qual o custo real de carregamento do gap de prazo de recebimento em relação ao custo de capital do prestador. Essas não são perguntas de auditoria. São perguntas de posicionamento estratégico, e a diferença é consequente: auditoria identifica o problema depois que ele está instalado; posicionamento estratégico quantifica a exposição antes que ela se torne irreversível.
Para as operadoras, a perspectiva é simétrica. O modelo de verticalização entrega ganho de margem no curto e médio prazo, como os dados de 2024 e 2025 demonstram com clareza. A questão analítica relevante para o ciclo seguinte é diferente: qual é o custo de longo prazo de uma cadeia de prestadores independentes sistematicamente descapitalizada. Com 41% dos hospitais associados à Anahp reduzindo investimentos abaixo do planejado em 2024 por restrição de fluxo de caixa, a capacidade instalada da rede independente já está em trajetória de deterioração verificável. Fornecedores de OPMe descapitalizados reduzem estoque e cancelam cirurgias eletivas. Hospitais com margem comprimida postergam aquisição de equipamentos e abertura de leitos. A deterioração da infraestrutura assistencial independente não é um problema regulatório. É um risco operacional para o ecossistema que depende dessa infraestrutura como complemento da rede própria, especialmente em mercados regionais onde a cobertura da rede própria ainda não é integral.
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