Análise Setorial · 31 de maio de 2026
Saúde Suplementar · Oftalmologia · Mercado Pay-Per-Use

Oftalmologia no Brasil: o mercado de R$10 bilhões que o envelhecimento vai reorganizar

Estrutura de mercado, dinâmica competitiva e os três canais de crescimento para clínicas no ciclo 2025–2035

O envelhecimento converte prevalência de doença ocular em volume assistencial de forma automática. O gap regulatório preserva o canal de receita fora da tabela de operadoras. A fragmentação mantém aberto o espaço de consolidação. As três forças operam na mesma direção.
1,8 mi
cirurgias de catarata realizadas em 2024
52,2 mi
beneficiários na saúde suplementar
37,8%
da população será idosa em 2070
R$383,5 bi
despesas assistenciais projetadas em 2030
Sumário Executivo

Três teses sobre o mercado oftalmológico brasileiro

A oftalmologia concentra três condições estruturais do sistema de saúde brasileiro que operam na mesma direção. O envelhecimento da população converte prevalência de doença ocular em volume assistencial de forma automática, sem dependência de ciclo econômico ou mudança de comportamento. A cobertura obrigatória definida pelo Rol ANS cobre o procedimento básico e deixa fora os procedimentos de maior valor tecnológico, criando um mercado de desembolso direto permanente e crescente. A oferta privada está distribuída em um mercado altamente fragmentado, sem concentração documentada nos dois maiores grupos. As três condições se reforçam: a demografia expande a base de pacientes, o gap regulatório preserva o canal de receita fora da tabela de operadoras, e a fragmentação mantém aberto o espaço de consolidação. O mercado movimenta entre R$8 e R$10 bilhões por ano. O envelhecimento o reorganizará.

Tese 1 · Tese Central
O envelhecimento da população brasileira transforma a oftalmologia no segmento de maior crescimento estrutural da saúde suplementar no ciclo 2025–2035.
Em 2024, foram realizadas 1,8 milhão de cirurgias de catarata no Brasil. A população acima de 65 anos representava 10,9% dos brasileiros em 2022 e chegará a 37,8% em 2070. A prevalência de catarata supera 85% nos pacientes acima de 80 anos. A degeneração macular relacionada à idade acomete mais de 30% dessa faixa. Glaucoma e retinopatia diabética completam o conjunto de doenças oculares cuja prevalência é diretamente indexada à idade, sem mecanismo de prevenção e com tratamento exclusivamente clínico ou cirúrgico.
Tese 2 · Estrutura de Mercado
O mercado privado de oftalmologia movimenta entre R$8 e R$10 bilhões por ano, com a oferta distribuída em mercado altamente fragmentado sem concentração relevante documentada.
A Vision One e o Grupo Opty, fundado em 2016 com apoio do Pátria Investimentos, são os dois grupos de maior escala documentada. O restante do mercado está distribuído em clínicas e hospitais independentes sem escala operacional consolidada e sem poder de negociação com operadoras. O movimento de consolidação por capital privado está em curso e ainda não produziu concentração relevante. O espaço de posicionamento para clínicas independentes existe e tem horizonte mensurável.
Tese 3 · Arquitetura de Oportunidade
O gap entre a cobertura obrigatória do Rol ANS e a demanda por tecnologia superior estrutura um mercado de desembolso direto permanente, operado simultaneamente em três canais com lógicas econômicas distintas.
O Rol ANS cobre a facoemulsificação com lente intraocular monofocal como cobertura obrigatória. A cirurgia com laser de femtossegundo não consta do Rol como cobertura obrigatória. Lentes multifocais, trifocais e tóricas não estão incluídas automaticamente. O ticket de mercado para cirurgia de catarata com tecnologia superior varia entre R$3 mil e R$20 mil por olho, com o tipo de lente como principal determinante. O envelhecimento da base de beneficiários expande esse canal de forma contínua.
Seção 1 de 5 · Estrutura de Mercado

O mercado oftalmológico brasileiro: estrutura, volume e assimetrias

A oftalmologia concentra as duas principais assimetrias do sistema de saúde brasileiro: desigualdade geográfica de oferta e desigualdade de acesso entre os setores público e privado. Os 16.784 especialistas em oftalmologia ativos em 2024 estão distribuídos de forma estruturalmente desigual: 18 das 27 unidades da federação ficam abaixo da média nacional de 8,96 especialistas por 100 mil habitantes, segundo o Informe Técnico nº 7 do estudo Demografia Médica no Brasil 2025. O Distrito Federal registra 19,18 especialistas por 100 mil habitantes. O Amazonas registra 3,60, o Pará 3,77 e o Maranhão 4,22. A razão entre o extremo superior e o inferior é de 5,3 vezes.

O volume de cirurgias de catarata realizadas em 2024 foi de 1.846.698 procedimentos, taxa de 868,69 por 100 mil habitantes. O SUS respondeu por 64% do volume absoluto, com 1.181.837 cirurgias e taxa de 736,30 por 100 mil habitantes entre usuários exclusivos da rede pública. Os planos de saúde realizaram 664.861 cirurgias, com taxa de 1.276,79 por 100 mil beneficiários, 73,4% superior à da rede pública. A disparidade varia por região: no Norte, os planos realizaram 157% mais procedimentos por habitante do que o SUS; no Sul, 138%; no Centro-Oeste, 87%; no Nordeste, 71%; no Sudeste, 39%.

Exhibit 1.1
Taxa de cirurgias de catarata por 100 mil habitantes: SUS versus planos de saúde por região, 2024
SUS (usuários exclusivos) Planos de saúde Brasil 736,3 1.276,8 +73,4% Norte 372,0 957,4 +157% Nordeste 745,1 1.277,7 +71% Sudeste 892,4 1.237,3 +39% Sul 729,1 1.735,9 +138% Centro-Oeste 485,6 907,4 +87% Fonte: Scheffer, M. (coord.). Radar da Demografia Médica no Brasil, Informe Técnico nº 7. FMUSP/AMB/MS/OPAS, agosto 2025. Base: Datasus e ANS.

A demanda reprimida no SUS quantifica a distância entre necessidade e oferta. Em 2024, a fila de espera para cirurgia de catarata registrava 168,4 mil solicitações pendentes, com tempo médio superior a quatro meses entre diagnóstico e procedimento. A cirurgia de catarata foi o procedimento com maior demanda reprimida no SUS naquele ano. Em maio de 2025, o governo federal lançou o programa Agora Tem Especialistas com objetivo de ampliar o acesso por meio do credenciamento de clínicas e hospitais privados para atendimento de pacientes do SUS.

Exhibit 1.2
Oftalmologistas por 100 mil habitantes por unidade da federação, 2024 · Média nacional: 8,96
Acima da média (8,96) Abaixo da média Crítico (<5,0) NORTE Amazonas 3,60 Pará 3,77 Acre 4,54 Amapá 5,36 Roraima 6,28 Tocantins 6,91 Rondônia 8,19 NORDESTE Maranhão 4,22 Alagoas 5,53 Ceará 6,52 Piauí 6,52 Bahia 6,81 Pernambuco 6,92 R.G. Norte 7,37 Sergipe 7,81 Paraíba 8,15 CENTRO-OESTE Mato Grosso 7,32 M.G. do Sul 9,55 Goiás 9,70 Dist. Federal 19,18 SUL R.G. do Sul 8,42 Paraná 9,69 Sta. Catarina 9,78 SUDESTE Rio de Janeiro 10,43 Minas Gerais 10,86 Espírito Santo 10,97 São Paulo 11,25 Média nacional: 8,96 por 100 mil hab. · 18 UFs abaixo da média Fonte: Scheffer, M. (coord.). Radar da Demografia Médica no Brasil, Informe Técnico nº 7. FMUSP/AMB/MS/OPAS, agosto 2025.
Exhibit 1.3
Taxa de cirurgias de catarata por 100 mil habitantes: Brasil versus países selecionados, 2024
Países acima do Brasil Brasil Países abaixo do Brasil França 1.493,0 Coreia do Sul 1.471,6 Bélgica 1.305,0 Dinamarca 1.287,7 Suécia 1.285,8 Estados Unidos 1.172,5 Alemanha 1.153,7 Japão 1.148,0 Austrália 1.110,5 Canadá 1.103,6 Espanha 1.046,9 Países Baixos 1.017,9 Itália 980,2 Reino Unido 956,2 Portugal 952,8 Brasil 868,7 16º / 23 Turquia 842,7 Israel 826,6 Índia 579,9 Costa Rica 434,0 Chile 301,8 China 220,5 México 147,5 Fonte: Scheffer, M. (coord.). Radar da Demografia Médica no Brasil, Informe Técnico nº 7. Dados internacionais: Eurostat, OCDE Data Explorer.
Seção 2 de 5 · Demanda e Gap de Acesso

O envelhecimento expande uma base de pacientes que o sistema já não consegue absorver.

Quatro doenças oculares sem mecanismo de prevenção, com prevalência diretamente indexada à faixa etária acima de 60 anos, produzem demanda compulsória e crescente. O gap documentado não é de pacientes: é de acesso ao diagnóstico e ao procedimento.

O gap entre prevalência de doença ocular e procedimento realizado é documentado e mensurável. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, 34,6% da população de 60 anos ou mais tiveram diagnóstico de catarata em um ou ambos os olhos. Desses, 74,2%, estimativa de 7,3 milhões de pacientes, tiveram indicação médica e realizaram a cirurgia. A PNS 2013 registrou que 27,7% das pessoas de 60 anos ou mais com indicação cirúrgica de catarata não realizaram o procedimento. O Brasil tem 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2023, número que chegará a 75,3 milhões em 2070.

Exhibit 2.1
Crescimento da população com 60 anos ou mais no Brasil: 2000, 2023 e 2070
15,2 mi
2000 · 8,7% da população
33,0 mi
2023 · 15,6% · Hoje · +117%
75,3 mi
2070 · 37,8% · Quase 4 em cada 10 brasileiros · +128%

Fonte: IBGE. Projeções de População, revisão 2024, elaborada com base no Censo Demográfico 2022.

Exhibit 2.2
Prevalência das quatro doenças oculares por faixa etária no Brasil
Catarata
Cirúrgico
Principal causa de cegueira tratável
50–59 anos
~14%
60–69 anos
20%
60+ anos
34,6%
70–79 anos
42,8%
80+ anos
68,3%
PNS/IBGE 2019; análise epidemiológica CEROF/UFG
Glaucoma
Crônico
Maior causa de cegueira irreversível
40+ anos
2–3%
70+ anos
>6%
80+ anos
~10%
Estimativa CBO: 1,7 milhão de portadores no Brasil
CBO. Condições de Saúde Ocular no Brasil, 2024; Agência Brasil, maio 2024
Retinopatia Diabética
Crônico
Principal causa de cegueira em ativos
Diabéticos DM2
37,3%
Pop. diabética BR
24–39%
DM2 após 20 anos
60%
Prevalência estimada: 2 milhões de casos no Brasil
Conitec. PCDT Retinopatia Diabética, março 2024; SBD 2023
DMRI
Crônico
Cegueira irreversível acima de 60 anos
60+ anos
~10%
75+ anos
>25%
Principal causa de cegueira irreversível acima de 60 anos nos países ocidentais
Manual MSD, revisão abr. 2024; CBO 2024
Exhibit 2.3
Funil de acesso à cirurgia de catarata: de cada 100 brasileiros com 60 anos ou mais
100
Idosos com 60+ anos · base da análise
34,6
Com diagnóstico de catarata · PNS/IBGE 2019
25,7
Com indicação e cirurgia realizada · 7,3 milhões de pacientes
27,7%
Com indicação cirúrgica sem cirurgia realizada · PNS 2013
N.Q.
Sem diagnóstico estabelecido · parcela reconhecida como significativa pela PNS, não quantificada

Fontes: IBGE. PNS 2019 e PNS 2013. Nota: dados de edições distintas da PNS. N.Q. = não quantificado.

Seção 3 de 5 · Arquitetura Regulatória e Gap de Mercado

O Rol ANS define um piso de cobertura que, por arquitetura, preserva o mercado de desembolso direto.

O envelhecimento da base de beneficiários pressiona as despesas assistenciais das operadoras de forma previsível e acelerada. O Rol ANS responde cobrindo o procedimento básico. A distância entre esse piso e a tecnologia disponível é o espaço estrutural e permanente do pay-per-use.

As operadoras operam sob pressão estrutural de custo que o envelhecimento acelera de forma previsível. A participação dos beneficiários com 60 anos ou mais nas despesas assistenciais era de 36,5% em 2020 e chegará a 45,2% em 2031 no cenário demográfico puro, segundo o IESS. A relação de custo entre essa faixa e a de 0 a 19 anos era de 5,9 em 2020 e chegará a 6,3 até 2031 no cenário com crescimento econômico moderado. Em termos absolutos, as despesas assistenciais projetadas pelo IESS para 2030 somam R$383,5 bilhões, crescimento de 157,3% em relação a 2017, com o envelhecimento como principal determinante estrutural. Nesse contexto, ampliar cobertura voluntariamente não é uma opção disponível para as operadoras: é uma pressão adicional sobre uma base de custo já em aceleração.

Exhibit 3.1
Participação dos beneficiários com 60 anos ou mais nas despesas assistenciais totais: 2020 versus projeção 2031
36,5%
2020 · Realizado
60+ nas despesas assistenciais
Relação custo idoso/jovem: 5,9x
45,2%
2031 · Cenário demográfico puro
60+ nas despesas assistenciais
Relação custo idoso/jovem: 6,1x
49,1%
2031 · Com crescimento econômico
60+ nas despesas assistenciais
Relação custo idoso/jovem: 6,3x
R$383,5 bi
Despesas assistenciais projetadas · 2030 · Crescimento de 157,3% em relação a 2017. Principal determinante: envelhecimento da base.

Fonte: IESS. Impacto do envelhecimento sobre as despesas assistenciais da Saúde Suplementar, maio 2021. IESS. Projeção das despesas assistenciais, 2018.

O Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS estabelece a cobertura obrigatória para a cirurgia convencional de catarata com facoemulsificação e lente intraocular monofocal, conforme os pareceres técnicos 17 e 18/2024. A cirurgia com laser de femtossegundo não consta do Rol como cobertura obrigatória. Lentes multifocais, trifocais e tóricas não têm cobertura automática, gerando coparticipação ou pagamento adicional a critério do contrato da operadora. O gap entre o piso regulatório e a tecnologia disponível não é uma falha do sistema: é a arquitetura que define onde o mercado de desembolso direto opera de forma permanente.

Exhibit 3.2
Cobertura obrigatória versus gap de desembolso direto nos principais procedimentos oftalmológicos
ProcedimentoCobertura obrigatória (Rol ANS)O que fica fora do RolCanal
Cirurgia de catarata
Facoemulsificação
Procedimento + lente monofocal
Laser femtossegundo · lentes multifocal, trifocal e tórica
PPU
Injeções intravítreas
Anti-VEGF · DMRI e RD
Medicamento (em planos que o incluem)
Taxa do centro cirúrgico · honorário médico frequentemente não cobertos
PPU parcial
Glaucoma
Tratamento clínico e cirúrgico
Trabeculoplastia a laser · cirurgia filtrante · colírios de 1ª linha
Exames de monitoramento longitudinal (OCT, campo visual) sujeitos a limitação de frequência contratual
PPU parcial
Cirurgia refrativa
LASIK · PRK · SMILE
Não consta do Rol para adultos sem indicação clínica específica
Procedimento completo: consultas, exames pré-op, cirurgia e pós-op
100% PPU
Cobertura obrigatória Cobertura parcial ou condicional Fora da cobertura obrigatória

Fonte: ANS. Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, atualização 2024. Pareceres Técnicos nº 17 e 18/2024, GEAS/GGRAS/DIPRO/ANS. PPU = pay-per-use (desembolso direto do paciente).

Seção 4 de 5 · Canais e Modelos Econômicos

A jornada do paciente idoso gera receita recorrente em canais que não se cancelam.

Um único paciente idoso com catarata, glaucoma e histórico de diabetes transita por três canais distintos ao longo de sua jornada assistencial. Cada etapa tem modelo de remuneração próprio. A clínica que captura toda a jornada não depende de tabela de operadora para sustentar sua receita.

O gap regulatório mapeado na seção anterior não é operado por um único modelo econômico. Três canais capturam segmentos distintos da mesma demanda: o SUS contratualizado, que absorve pacientes sem cobertura suplementar por meio do credenciamento de clínicas privadas pelo programa Agora Tem Especialistas; os cartões de benefícios e clínicas populares, que oferecem consultas com especialistas entre R$40 e R$70 para a população sem plano de saúde formal; e o pay-per-use premium, que captura o paciente com plano que demanda tecnologia superior à cobertura obrigatória do Rol ANS. Os três canais operam sobre bases de pacientes parcialmente distintas e não concorrem entre si.

Exhibit 4.1
Jornada do paciente idoso: qual canal remunera cada etapa ao longo de 12 meses
Cobertura do plano de saúde Pay-per-use (desembolso direto) SUS / cartão de benefícios Cobertura parcial + PPU
1
Consulta inicial
Diagnóstico de catarata, glaucoma e avaliação retina
SUS ou cartão
R$40–R$70
2
Cirurgia catarata
Facoemulsificação + lente monofocal
Plano ou SUS
SUS: R$771,60/olho
3
Upgrade tecnológico
Lente multifocal ou laser femtossegundo
PPU integral
R$3 mil–R$20 mil/olho
4
Anti-VEGF retina
Injeção intravítrea DMRI ou RD
Medicamento: plano
Taxa + honorário: PPU
5
Monitoramento glaucoma
OCT + campo visual trimestral
Dentro limite: plano
Acima limite: PPU
6
Retorno e revisão
Consulta pós-op e acompanhamento anual
Plano ou cartão
Recorrente anual
Etapas da jornada
6
Etapas com PPU
4
Das seis etapas da jornada, quatro têm componente de desembolso direto, total ou parcial. A clínica que captura toda a jornada opera em múltiplos canais com modelo de remuneração não dependente de um único payer.

Fontes: Ministério da Saúde. SIGTAP código 0405050372, tabela vigente 2024. ANS. Pareceres Técnicos nº 17 e 18/2024, GEAS/GGRAS/DIPRO/ANS. Cartão de Todos, 2025. Vision One, 2025. Nota: o ticket de cirurgia catarata PPU refere-se ao range de mercado para lente premium; o valor SUS refere-se à facoemulsificação com lente monofocal dobrável.

Exhibit 4.2
Ticket por procedimento nos três canais: o que cada modelo de remuneração entrega à clínica
Canal 1
SUS Contratualizado
Programa Agora Tem Especialistas
Cirurgia catarata
R$771,60
por olho · facoemulsificação + LIO dobrável
SIGTAP 0405050372 · MS 2024
Fotocoagulação laser
R$75,15
por sessão
SIGTAP · MS 2024
Trabeculectomia (glaucoma)
R$898,35
valor total ambulatorial
SIGTAP · MS 2024
Lógica econômica: volume. Margem unitária baixa, previsibilidade de fluxo por credenciamento.
Canal 2
Cartões de Benefícios
Clínicas populares e redes de desconto
Consulta com especialista
R$40–R$70
por consulta oftalmológica
Cartão de Todos · site oficial 2025
Exames básicos
Variável
conforme tabela da rede conveniada
Rede AmorSaúde · 2025
Função na jornada
Porta de entrada diagnóstica para pacientes sem plano de saúde
Lógica econômica: escala e recorrência. Consulta popular gera encaminhamento para procedimento cirúrgico.
Canal 3
PPU Premium
Desembolso direto · tecnologia superior
Catarata com lente premium
R$3 mil–R$20 mil
por olho · lente multifocal ou trifocal
Vision One · site oficial 2025
Anti-VEGF · taxa + honorário
PPU parcial
medicamento coberto · ato cirúrgico não coberto
ANS · Pareceres 17 e 18/2024
OCT + campo visual extra
PPU parcial
acima da frequência contratual do plano
ANS · Rol 2024
Lógica econômica: ticket alto e recorrência. Maior margem unitária, menor dependência de tabela de operadora.

Fontes: Ministério da Saúde. SIGTAP, tabela vigente 2024. ANS. Pareceres Técnicos nº 17 e 18/2024 e Rol de Procedimentos 2024. Cartão de Todos, 2025. AmorSaúde, 2025. Vision One, 2025. Nota: valores SUS referem-se à tabela SIGTAP nacional; valores PPU referem-se a range de mercado para procedimentos com tecnologia superior à cobertura obrigatória do Rol ANS.

Seção 5 de 5 · Perspectiva Evodux

A visão Evodux para o ciclo 2025–2035

Tese 1 · A integração dos três canais multiplica por 14 a receita por paciente.

A especialização em PPU premium parece o modelo de maior margem. Não é o modelo de maior receita total por paciente. A clínica que só opera cirurgia premium captura o procedimento, mas entrega o diagnóstico, o encaminhamento e o monitoramento para terceiros. O paciente que ela opera foi diagnosticado em outro lugar, será monitorado em outro lugar, e seu próximo procedimento será decidido em outro lugar.

O mecanismo que torna o modelo integrado superior não é operacional: é econômico. A clínica que controla o diagnóstico controla a indicação. A que controla a indicação define a tecnologia. A que define a tecnologia determina o canal de remuneração, o ticket e a frequência do retorno. A clínica que opera os três canais não depende de encaminhamento externo para nenhuma etapa da jornada: ela é o único interlocutor do paciente em toda a cadeia oftalmológica.

Exhibit 5.1
Receita anual por paciente diabético idoso: quatro perfis
Convencional · só plano R$0
Paciente capturado pelo plano. Clínica fora da jornada.
Integrada básica · SUS + cartão R$1.237
SUS R$771/olho + cartão + OCT extra + retornos
PPU integrada · lente multifocal R$17.320
Diagnóstico + 2 cirurgias R$16k + OCTs + retinas + retornos
PPU premium · lente trifocal R$31.950
Diagnóstico + 2 cirurgias R$30k + programa completo
Projeção analítica Evodux. Base: SIGTAP MS 2024, Cartão de Todos 2025, Vision One 2025. PPU multifocal: média R$8k/olho. PPU trifocal: teto R$15k/olho.
14x — Multiplicador PPU Integrado: R$17.320 vs R$1.237/paciente. Uma carteira de 100 pacientes diabéticos idosos gera R$123.700/ano no modelo integrado básico e R$1.732.000/ano no modelo PPU integrado. A diferença é o modelo, não o paciente.

Tese 2 · A consulta de R$40 é o custo de aquisição do procedimento de R$15 mil.

O mercado popular de oftalmologia via cartões de benefícios cresce porque a população sem plano de saúde formal tem doença ocular e não tem acesso ao especialista. Cada consulta de triagem a R$40–R$70 gera um diagnóstico. O diagnóstico de catarata incipiente, glaucoma não tratado ou retinopatia diabética não monitorada é o início da jornada cirúrgica, não o fim da consulta popular.

A clínica que estrutura canal popular de diagnóstico tem a indicação cirúrgica sob gestão. A que depende de encaminhamento externo recebe o paciente no momento da cirurgia, sem histórico clínico próprio, sem relacionamento estabelecido e sem capacidade de influenciar a escolha tecnológica. A diferença entre as duas clínicas não é de volume: é de quem define o procedimento, a tecnologia e o canal de remuneração.

Exhibit 5.2
De 100 diabéticos idosos rastreados: as linhas de receita que se abrem
Base rastreada
100
diabéticos acima de 65 anos
Catarata
34,6 com diagnóstico
PNS/IBGE 2019
PPU R$3k–R$20k
por olho · episódico
Retinopatia
37,3 dos diabéticos
SBD Diretriz 2023
Anti-VEGF recorrente
mensal/bimestral
Glaucoma
>6% acima de 70 anos
CBO 2024
OCT trimestral
além do limite do plano
3 linhas de receita simultâneas
no mesmo paciente · independente de payer único
Prevalências: PNS/IBGE 2019, SBD 2023, CBO 2024. Receita catarata: Vision One 2025.
Retorno por diagnóstico convertido
375x
R$15k / R$40 de triagem
A consulta popular não é produto de baixa margem. É o investimento de aquisição do paciente que, convertido em cirurgia PPU com lente trifocal, gera retorno de 375 vezes o custo de captação.

Tese 3 · O paciente diabético idoso é o pipeline que cresce independente de ciclo econômico.

A prevalência de diabetes atinge 30,4% da população acima de 65 anos nas capitais brasileiras, segundo o VIGITEL 2023 do Ministério da Saúde. Isso representa 10 milhões de diabéticos idosos em 2023. Sobre essa base, a retinopatia diabética acomete entre 24% e 39% dos diabéticos, segundo o PCDT aprovado pela Conitec em março de 2024. A catarata tem prevalência de 34,6% em idosos com 60 anos ou mais. O glaucoma supera 6% acima de 70 anos. As três doenças coexistem no mesmo paciente com alta frequência, todas sem prevenção e com tratamento exclusivamente especializado.

A base de diabéticos idosos crescerá de 10 milhões hoje para 12,6 milhões em 2030 e 15,7 milhões em 2040, segundo projeção Evodux construída com dados populacionais do IBGE revisão 2024 e prevalência do VIGITEL 2023. O pipeline cirúrgico estimado em 30% da base, pacientes com indicação ativa a cada momento, representa 3 milhões de procedimentos hoje e 4,7 milhões em 2040. Esse crescimento não depende de renda, de emprego formal nem de cobertura de plano de saúde: depende exclusivamente de envelhecimento.

Exhibit 5.3
Base de diabéticos idosos Brasil: 2000–2070
2000
4,6 mi
2023
10,0 mi · Hoje
2030
12,6 mi +26%
2040
15,7 mi +57%
2070
22,9 mi +129%
Pipeline cirúrgico estimado (30% da base)
3,0 mi
2023
3,8 mi
2030
4,7 mi
2040
Metodologia Evodux: IBGE Projeções 2024 × VIGITEL 2023 (30,4% 65+). Intermediários: interpolação linear. Pipeline: 30% estimativa analítica Evodux.
Pipeline hoje
3 mi
indicação ativa
Pipeline em 2040
4,7 mi
crescimento +57%
Crescimento estrutural independente de ciclo econômico. Determinado exclusivamente por demografia e prevalência de doença crônica.
A clínica que estrutura programa sistemático de rastreamento oftalmológico de diabéticos idosos converte epidemiologia em receita recorrente. O rastreamento não é ação de saúde pública: é inteligência comercial. Crescimento estrutural independente de ciclo econômico. Determinado exclusivamente por demografia e prevalência de doença crônica.
Fontes Primárias e Referências
Dados epidemiológicos e demográficos
1. IBGE. Projeções de População: Brasil e Unidades da Federação, revisão 2024.
Elaborada com base no Censo Demográfico 2022. Divulgada em agosto de 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
2. IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: ciclos de vida: Brasil.
Rio de Janeiro: IBGE, 2021. Módulo: saúde da pessoa idosa, catarata e cirurgia.
3. IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2013: saúde dos idosos: Brasil.
Rio de Janeiro: IBGE, 2015. Módulo: cirurgia de catarata e acesso ao procedimento.
4. Ministério da Saúde. VIGITEL Brasil 2023.
Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Brasília: MS, 2024. Prevalência de diabetes por faixa etária nas capitais brasileiras.
5. Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Condições de Saúde Ocular no Brasil, 2024.
Dados de prevalência de glaucoma por faixa etária e estimativa de portadores. São Paulo: CBO, 2024.
6. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retinopatia Diabética.
Aprovado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS em março de 2024. Brasília: MS/Conitec, 2024.
7. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz Oficial da SBD 2023.
Prevalência de retinopatia diabética em pacientes com DM2. São Paulo: SBD, 2023.
Estrutura de mercado e volume assistencial
8. Scheffer, M. (coord.). Radar da Demografia Médica no Brasil, Informe Técnico nº 7.
FMUSP/AMB/MS/OPAS, agosto 2025. Dados de cirurgias de catarata 2024 (Datasus/SIA-SUS e SIH/SUS) e oftalmologistas ativos por UF (CBO 2024). Comparação internacional: Eurostat e OCDE Data Explorer.
9. ANS. Beneficiários de planos privados de saúde.
Agência Nacional de Saúde Suplementar. Dados de beneficiários de planos médico-hospitalares, outubro de 2025. Disponível em: www.ans.gov.br.
Regulação e cobertura
10. ANS. Pareceres Técnicos nº 17 e 18/2024.
GEAS/GGRAS/DIPRO/ANS. Cobertura obrigatória para cirurgia de catarata, laser de femtossegundo e lentes intraoculares. ANS, 2024.
11. ANS. Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, atualização 2024.
Agência Nacional de Saúde Suplementar. Lista de procedimentos com cobertura obrigatória. ANS, 2024.
12. Ministério da Saúde. SIGTAP — Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos do SUS.
Código 0405050372: Facoemulsificação com implante de lente intraocular dobrável. Valor: R$771,60. Tabela vigente 2024. Disponível em: sigtap.datasus.gov.br.
Custos e projeções assistenciais
13. IESS. Impacto do envelhecimento sobre as despesas assistenciais da Saúde Suplementar.
Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. Publicado em maio de 2021. Três cenários de projeção até 2031. São Paulo: IESS, 2021.
14. IESS. Projeção das despesas assistenciais da saúde suplementar.
Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. Projeção de R$383,5 bilhões em 2030 (crescimento de 157,3% sobre 2017). São Paulo: IESS, 2018.
Canais e mercado PPU
15. Cartão de Todos. Tabela de serviços e valores de consultas oftalmológicas.
Disponível em: www.cartaodetodos.com.br. Consultado em 31 de maio de 2026. Faixa de R$40–R$70 por consulta com especialista.
16. Vision One. Tabela de procedimentos e tecnologias disponíveis.
Disponível em: www.visionone.com.br. Consultado em 31 de maio de 2026. Faixa de R$3.000–R$20.000 por olho para cirurgia de catarata com lente premium.
17. AmorSaúde. Rede de clínicas populares e valores de consultas.
Disponível em: www.amorsaude.com.br. Consultado em 31 de maio de 2026.

Nota metodológica: Este paper utiliza exclusivamente fontes primárias oficiais: órgãos de governo, autarquias regulatórias, institutos de pesquisa e sociedades médicas com publicações datadas e verificáveis. Projeções elaboradas pela Evodux são identificadas explicitamente como estimativas analíticas nos rodapés dos exhibits correspondentes. A data de corte dos dados é agosto de 2025 para o Informe Técnico nº 7 da FMUSP, outubro de 2025 para dados de beneficiários da ANS e 31 de maio de 2026 para preços de mercado PPU.

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