Oftalmologia no Brasil: o mercado de R$10 bilhões que o envelhecimento vai reorganizar
Estrutura de mercado, dinâmica competitiva e os três canais de crescimento para clínicas no ciclo 2025–2035
Três teses sobre o mercado oftalmológico brasileiro
A oftalmologia concentra três condições estruturais do sistema de saúde brasileiro que operam na mesma direção. O envelhecimento da população converte prevalência de doença ocular em volume assistencial de forma automática, sem dependência de ciclo econômico ou mudança de comportamento. A cobertura obrigatória definida pelo Rol ANS cobre o procedimento básico e deixa fora os procedimentos de maior valor tecnológico, criando um mercado de desembolso direto permanente e crescente. A oferta privada está distribuída em um mercado altamente fragmentado, sem concentração documentada nos dois maiores grupos. As três condições se reforçam: a demografia expande a base de pacientes, o gap regulatório preserva o canal de receita fora da tabela de operadoras, e a fragmentação mantém aberto o espaço de consolidação. O mercado movimenta entre R$8 e R$10 bilhões por ano. O envelhecimento o reorganizará.
O mercado oftalmológico brasileiro: estrutura, volume e assimetrias
A oftalmologia concentra as duas principais assimetrias do sistema de saúde brasileiro: desigualdade geográfica de oferta e desigualdade de acesso entre os setores público e privado. Os 16.784 especialistas em oftalmologia ativos em 2024 estão distribuídos de forma estruturalmente desigual: 18 das 27 unidades da federação ficam abaixo da média nacional de 8,96 especialistas por 100 mil habitantes, segundo o Informe Técnico nº 7 do estudo Demografia Médica no Brasil 2025. O Distrito Federal registra 19,18 especialistas por 100 mil habitantes. O Amazonas registra 3,60, o Pará 3,77 e o Maranhão 4,22. A razão entre o extremo superior e o inferior é de 5,3 vezes.
O volume de cirurgias de catarata realizadas em 2024 foi de 1.846.698 procedimentos, taxa de 868,69 por 100 mil habitantes. O SUS respondeu por 64% do volume absoluto, com 1.181.837 cirurgias e taxa de 736,30 por 100 mil habitantes entre usuários exclusivos da rede pública. Os planos de saúde realizaram 664.861 cirurgias, com taxa de 1.276,79 por 100 mil beneficiários, 73,4% superior à da rede pública. A disparidade varia por região: no Norte, os planos realizaram 157% mais procedimentos por habitante do que o SUS; no Sul, 138%; no Centro-Oeste, 87%; no Nordeste, 71%; no Sudeste, 39%.
A demanda reprimida no SUS quantifica a distância entre necessidade e oferta. Em 2024, a fila de espera para cirurgia de catarata registrava 168,4 mil solicitações pendentes, com tempo médio superior a quatro meses entre diagnóstico e procedimento. A cirurgia de catarata foi o procedimento com maior demanda reprimida no SUS naquele ano. Em maio de 2025, o governo federal lançou o programa Agora Tem Especialistas com objetivo de ampliar o acesso por meio do credenciamento de clínicas e hospitais privados para atendimento de pacientes do SUS.
O envelhecimento expande uma base de pacientes que o sistema já não consegue absorver.
O gap entre prevalência de doença ocular e procedimento realizado é documentado e mensurável. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, 34,6% da população de 60 anos ou mais tiveram diagnóstico de catarata em um ou ambos os olhos. Desses, 74,2%, estimativa de 7,3 milhões de pacientes, tiveram indicação médica e realizaram a cirurgia. A PNS 2013 registrou que 27,7% das pessoas de 60 anos ou mais com indicação cirúrgica de catarata não realizaram o procedimento. O Brasil tem 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2023, número que chegará a 75,3 milhões em 2070.
Fonte: IBGE. Projeções de População, revisão 2024, elaborada com base no Censo Demográfico 2022.
Fontes: IBGE. PNS 2019 e PNS 2013. Nota: dados de edições distintas da PNS. N.Q. = não quantificado.
O Rol ANS define um piso de cobertura que, por arquitetura, preserva o mercado de desembolso direto.
As operadoras operam sob pressão estrutural de custo que o envelhecimento acelera de forma previsível. A participação dos beneficiários com 60 anos ou mais nas despesas assistenciais era de 36,5% em 2020 e chegará a 45,2% em 2031 no cenário demográfico puro, segundo o IESS. A relação de custo entre essa faixa e a de 0 a 19 anos era de 5,9 em 2020 e chegará a 6,3 até 2031 no cenário com crescimento econômico moderado. Em termos absolutos, as despesas assistenciais projetadas pelo IESS para 2030 somam R$383,5 bilhões, crescimento de 157,3% em relação a 2017, com o envelhecimento como principal determinante estrutural. Nesse contexto, ampliar cobertura voluntariamente não é uma opção disponível para as operadoras: é uma pressão adicional sobre uma base de custo já em aceleração.
60+ nas despesas assistenciais
Relação custo idoso/jovem: 5,9x
60+ nas despesas assistenciais
Relação custo idoso/jovem: 6,1x
60+ nas despesas assistenciais
Relação custo idoso/jovem: 6,3x
Fonte: IESS. Impacto do envelhecimento sobre as despesas assistenciais da Saúde Suplementar, maio 2021. IESS. Projeção das despesas assistenciais, 2018.
O Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS estabelece a cobertura obrigatória para a cirurgia convencional de catarata com facoemulsificação e lente intraocular monofocal, conforme os pareceres técnicos 17 e 18/2024. A cirurgia com laser de femtossegundo não consta do Rol como cobertura obrigatória. Lentes multifocais, trifocais e tóricas não têm cobertura automática, gerando coparticipação ou pagamento adicional a critério do contrato da operadora. O gap entre o piso regulatório e a tecnologia disponível não é uma falha do sistema: é a arquitetura que define onde o mercado de desembolso direto opera de forma permanente.
| Procedimento | Cobertura obrigatória (Rol ANS) | O que fica fora do Rol | Canal |
|---|---|---|---|
| Cirurgia de catarata Facoemulsificação |
Procedimento + lente monofocal |
Laser femtossegundo · lentes multifocal, trifocal e tórica |
PPU |
| Injeções intravítreas Anti-VEGF · DMRI e RD |
Medicamento (em planos que o incluem) |
Taxa do centro cirúrgico · honorário médico frequentemente não cobertos |
PPU parcial |
| Glaucoma Tratamento clínico e cirúrgico |
Trabeculoplastia a laser · cirurgia filtrante · colírios de 1ª linha |
Exames de monitoramento longitudinal (OCT, campo visual) sujeitos a limitação de frequência contratual |
PPU parcial |
| Cirurgia refrativa LASIK · PRK · SMILE |
Não consta do Rol para adultos sem indicação clínica específica |
Procedimento completo: consultas, exames pré-op, cirurgia e pós-op |
100% PPU |
Fonte: ANS. Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, atualização 2024. Pareceres Técnicos nº 17 e 18/2024, GEAS/GGRAS/DIPRO/ANS. PPU = pay-per-use (desembolso direto do paciente).
A jornada do paciente idoso gera receita recorrente em canais que não se cancelam.
O gap regulatório mapeado na seção anterior não é operado por um único modelo econômico. Três canais capturam segmentos distintos da mesma demanda: o SUS contratualizado, que absorve pacientes sem cobertura suplementar por meio do credenciamento de clínicas privadas pelo programa Agora Tem Especialistas; os cartões de benefícios e clínicas populares, que oferecem consultas com especialistas entre R$40 e R$70 para a população sem plano de saúde formal; e o pay-per-use premium, que captura o paciente com plano que demanda tecnologia superior à cobertura obrigatória do Rol ANS. Os três canais operam sobre bases de pacientes parcialmente distintas e não concorrem entre si.
R$40–R$70
SUS: R$771,60/olho
R$3 mil–R$20 mil/olho
Taxa + honorário: PPU
Acima limite: PPU
Recorrente anual
Fontes: Ministério da Saúde. SIGTAP código 0405050372, tabela vigente 2024. ANS. Pareceres Técnicos nº 17 e 18/2024, GEAS/GGRAS/DIPRO/ANS. Cartão de Todos, 2025. Vision One, 2025. Nota: o ticket de cirurgia catarata PPU refere-se ao range de mercado para lente premium; o valor SUS refere-se à facoemulsificação com lente monofocal dobrável.
Fontes: Ministério da Saúde. SIGTAP, tabela vigente 2024. ANS. Pareceres Técnicos nº 17 e 18/2024 e Rol de Procedimentos 2024. Cartão de Todos, 2025. AmorSaúde, 2025. Vision One, 2025. Nota: valores SUS referem-se à tabela SIGTAP nacional; valores PPU referem-se a range de mercado para procedimentos com tecnologia superior à cobertura obrigatória do Rol ANS.
A visão Evodux para o ciclo 2025–2035
Tese 1 · A integração dos três canais multiplica por 14 a receita por paciente.
A especialização em PPU premium parece o modelo de maior margem. Não é o modelo de maior receita total por paciente. A clínica que só opera cirurgia premium captura o procedimento, mas entrega o diagnóstico, o encaminhamento e o monitoramento para terceiros. O paciente que ela opera foi diagnosticado em outro lugar, será monitorado em outro lugar, e seu próximo procedimento será decidido em outro lugar.
O mecanismo que torna o modelo integrado superior não é operacional: é econômico. A clínica que controla o diagnóstico controla a indicação. A que controla a indicação define a tecnologia. A que define a tecnologia determina o canal de remuneração, o ticket e a frequência do retorno. A clínica que opera os três canais não depende de encaminhamento externo para nenhuma etapa da jornada: ela é o único interlocutor do paciente em toda a cadeia oftalmológica.
Tese 2 · A consulta de R$40 é o custo de aquisição do procedimento de R$15 mil.
O mercado popular de oftalmologia via cartões de benefícios cresce porque a população sem plano de saúde formal tem doença ocular e não tem acesso ao especialista. Cada consulta de triagem a R$40–R$70 gera um diagnóstico. O diagnóstico de catarata incipiente, glaucoma não tratado ou retinopatia diabética não monitorada é o início da jornada cirúrgica, não o fim da consulta popular.
A clínica que estrutura canal popular de diagnóstico tem a indicação cirúrgica sob gestão. A que depende de encaminhamento externo recebe o paciente no momento da cirurgia, sem histórico clínico próprio, sem relacionamento estabelecido e sem capacidade de influenciar a escolha tecnológica. A diferença entre as duas clínicas não é de volume: é de quem define o procedimento, a tecnologia e o canal de remuneração.
Tese 3 · O paciente diabético idoso é o pipeline que cresce independente de ciclo econômico.
A prevalência de diabetes atinge 30,4% da população acima de 65 anos nas capitais brasileiras, segundo o VIGITEL 2023 do Ministério da Saúde. Isso representa 10 milhões de diabéticos idosos em 2023. Sobre essa base, a retinopatia diabética acomete entre 24% e 39% dos diabéticos, segundo o PCDT aprovado pela Conitec em março de 2024. A catarata tem prevalência de 34,6% em idosos com 60 anos ou mais. O glaucoma supera 6% acima de 70 anos. As três doenças coexistem no mesmo paciente com alta frequência, todas sem prevenção e com tratamento exclusivamente especializado.
A base de diabéticos idosos crescerá de 10 milhões hoje para 12,6 milhões em 2030 e 15,7 milhões em 2040, segundo projeção Evodux construída com dados populacionais do IBGE revisão 2024 e prevalência do VIGITEL 2023. O pipeline cirúrgico estimado em 30% da base, pacientes com indicação ativa a cada momento, representa 3 milhões de procedimentos hoje e 4,7 milhões em 2040. Esse crescimento não depende de renda, de emprego formal nem de cobertura de plano de saúde: depende exclusivamente de envelhecimento.
Nota metodológica: Este paper utiliza exclusivamente fontes primárias oficiais: órgãos de governo, autarquias regulatórias, institutos de pesquisa e sociedades médicas com publicações datadas e verificáveis. Projeções elaboradas pela Evodux são identificadas explicitamente como estimativas analíticas nos rodapés dos exhibits correspondentes. A data de corte dos dados é agosto de 2025 para o Informe Técnico nº 7 da FMUSP, outubro de 2025 para dados de beneficiários da ANS e 31 de maio de 2026 para preços de mercado PPU.
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