Ociosidade hospitalar: o custo oculto da capacidade instalada

Ociosidade hospitalar:
o custo oculto da capacidade instalada

Cinco estudos de caso no setor privado brasileiro

1S/2025  |  Referencial ANAHP 2025

Sumário executivo

1
O custo da ociosidade era invisível. Agora está apurado. Nos cinco casos analisados, o custo anual da ociosidade varia de R$ 13,97 mi a R$ 34,1 mi por instituição. Em nenhum dos cinco esse número existia antes da apuração por unidade. Em todos os cinco, o custo era mensal, recorrente e estrutural. Se a média dos cinco casos for aplicada aos mais de 6.900 hospitais privados brasileiros com perfil comparável (CNES/DATASUS, 2024), a ordem de grandeza do custo setorial da ociosidade não apurada supera R$ 140 bilhões anuais. O que mudou não foi o problema. Foi a visibilidade.
2
Cinco mecanismos distintos. Nenhum se resolve com eficiência operacional. Dependência tarifária SUS com verba pactuada insuficiente, superdimensionamento de rede própria, glosa estrutural por concentração de pagadores, assimetria de utilização por turno e subsídio cruzado por precificação assimétrica. São cinco diagnósticos distintos que exigem cinco intervenções distintas. Tratar todos com a mesma medida operacional não reduz o custo. Redistribui o impacto sem eliminar a causa.
3
Para três dos cinco casos, a janela de reversão sem reestruturação se fecha em dois a três anos. Os Casos 1, 2 e 4 operam entre 20 e 32 pontos percentuais abaixo do benchmark ANAHP. Nas séries históricas ANAHP, hospitais que ultrapassaram 30 p.p. de distância não registram reversão sem aporte de capital ou mudança de modelo societário. O Caso 1 já cruzou esse limiar. A combinação de pressão crescente de custos de pessoal, deterioração de recebimentos e expansão da saúde suplementar define um intervalo preciso: quem não reposicionar o mix de receita nos próximos dois a três anos perde a janela em que a reversão ainda é viável sem reestruturação radical.

Estrutura do estudo

SeçãoPergunta que responde
I. O referencial e o problemaO que os dados setoriais revelam sobre cada perfil analisado
II. O custo da ociosidadeQuanto custa, especificamente, em cada instituição?
III. Cinco mecanismos distintosQual é a causa raiz em cada perfil?
IV. O custo da inaçãoO valor financeiro da decisão em cada horizonte
V. Os vetores de intervençãoPor onde começar em cada perfil?
VI. A janela de 2026Por que o intervalo de decisão se fecha?
Seção I

O referencial e o problema: ANAHP vs. os cinco casos

O Observatório ANAHP 2025 registra taxa de ocupação média de 78,97% para os hospitais privados brasileiros, o maior nível desde 2021. Na região Sudeste, a média chegou a 79,91%. O sistema suplementar registra seu maior resultado nominal da história: R$ 24,4 bilhões de lucro em 2025, segundo o Painel Econômico-Financeiro da ANS, mas 63% desse resultado vieram de carteira aplicada com Selic a 12,75% ao ano, não da prestação de serviços de saúde. O setor financeiramente mais saudável da sua história é também o setor em que o prestador que não está nos hospitais ANAHP nunca esteve tão distante do mercado.

Os cinco casos analisados neste paper não são exceções. Cada perfil corresponde a um segmento numericamente expressivo da estrutura hospitalar privada brasileira: existem mais de 2.700 hospitais de médio porte com dependência majoritária do SUS (CNES/DATASUS, 2024), mais de 400 hospitais próprios de operadoras verticalizadas, mais de 1.800 Santas Casas e hospitais filantrópicos credenciados, centenas de hospitais dia especializados e dezenas de hospitais de alta complexidade com 10 ou mais operadoras credenciadas. Em todos os cinco casos analisados, a taxa de ocupação fica abaixo da média ANAHP. Em quatro dos cinco, o problema não é de volume. É de receita que a estrutura de pagamento não captura.

Os cinco casos e o referencial ANAHP

CasoPerfilMix de receitaOcupação 1S/2025Custo apuradoMecanismo
Caso 1: SudesteHosp. médio porte, ~200 leitos87% SUS46,88%R$ 13,97 mi/anoDependência tarifária SUS
Caso 2: Rio de JaneiroHosp. próprio de OPS, ~120 leitos100% OPS própria58,3%R$ 17,11 mi/anoSuperdimensionamento
Caso 3: Mato GrossoSanta Casa filantrópica, ~80 leitos94% planos71,4%R$ 20,2 mi/anoGlosa estrutural
Caso 4: São PauloHospital dia, ~40 salas88% planos + 12% pay-per-use54,7%R$ 15,34 mi/anoAssimetria de turno
Caso 5: Sul/SudesteAlta complexidade, ~250 leitos, 12 OPS97% planos74,1%R$ 34,1 mi/anoSubsídio cruzado

Tabela 1. Custo apurado = piso de custos diretos de pessoal, exercício 2025. Caso 3 inclui glosa estrutural. Caso 5 inclui déficit de subsídio cruzado. Fontes: análise Evodux; Observatório ANAHP 2025.

Exhibit 2 | Posicionamento dos cinco casos vs. benchmark ANAHP de 78,97%

0% 20% 40% 60% ANAHP 78,97% 46,9% −32 p.p. Caso 1 Sudeste · 87% SUS R$ 13,97 mi 58,3% −21 p.p. Caso 2 RJ · OPS verticalizada R$ 17,11 mi 71,4% −8 p.p. Caso 3 MT · Santa Casa · 94% planos R$ 20,2 mi 54,7% −24 p.p. Caso 4 SP · Hospital dia R$ 15,34 mi 74,1% −5 p.p. Caso 5 Sul/SE · Alta complex. R$ 34,1 mi Fontes: análise Evodux; Observatório ANAHP 2025. Custo apurado = piso de custos diretos de pessoal, exercício 2025.

A Tabela SUS cobre menos de 50% do custo real em mais de 1.500 procedimentos hospitalares (CMB, 2024). Para o Caso 1, com 87% dos atendimentos sob esses contratos e verba pactuada insuficiente para ocupar a capacidade instalada, a defasagem não é residual: é o regime tarifário dominante. A Lei 14.820/2024 prevê revisões anuais, mas o reajuste aplicado em 2024 foi de 3,5% sobre a produção assistencial de 2023, contra variação de custos hospitalares de dois dígitos pelo VCMH/IESS no mesmo período. Os Casos 2, 3, 4 e 5 operam majoritariamente com planos de saúde e ainda assim registram custos de ociosidade superiores a R$ 15 milhões anuais cada. Isso demonstra que a dependência do SUS é apenas um dos cinco mecanismos que produz o problema.

Indicadores setoriais de referência

IndicadorFonte2022202320242025
Taxa de ocupação ANAHP geral (%)ANAHP 202576,6476,8578,97n.d.
Taxa de ocupação ANAHP Sudeste (%)ANAHP 2025n.d.n.d.79,91n.d.
Beneficiários planos de saúde (mi)ANS jan/202650,1350,9652,2353,3
Sinistralidade operadoras (%)ANS 2025/202684,483,883,881,7
Tabela SUS: cobertura do custo real (%)CMB 2024< 50< 50< 50< 50

Tabela 2. Mercado suplementar em expansão acelerada (+1,3 mi beneficiários em 12 meses), operadoras em recuperação de sinistralidade, SUS com defasagem tarifária estrutural acumulada. A distância entre os dois segmentos cresce a cada exercício.

A estrutura de custos amplifica o problema em todos os perfis. Custos fixos hospitalares, sobretudo de pessoal, representam entre 60% e 70% do custo total de operação independentemente do volume atendido (Bittar, Revista de Administração em Saúde, 2024; Moody's Local Brasil, jan/2025). Quando a capacidade instalada supera a demanda financiada, esses custos são alocados sobre uma base de produção que não os sustenta. O resultado financeiro é mensurável: nos cinco casos analisados, o custo da ociosidade como proporção do custo direto varia de 28,6% no Caso 3 a 53,6% no Caso 1. Mecanismos distintos, mesma dinâmica: custo fixo sem receita correspondente, recorrente e invisível antes da apuração por unidade.

O que nenhuma fonte setorial pública responde: A ANS documenta a escala do sistema suplementar. O Observatório ANAHP documenta o desempenho dos hospitais de alta complexidade. O CNES documenta a estrutura física. Nenhuma dessas fontes responde quanto custa, especificamente, a ociosidade de cada unidade de cada instituição este mês. E essa é a pergunta que determina por onde começar.
Seção II

O custo da ociosidade: apuração mensal por unidade nos cinco casos

Em todos os cinco casos, o custo mensal da ociosidade nunca ficou abaixo de R$ 1 milhão. Em nenhum dos cinco esse número existia antes da apuração por unidade. Os mecanismos são distintos. A rigidez do custo de pessoal que os sustenta é a mesma.

O princípio é o mesmo nos cinco casos: custos fixos de pessoal não respondem a variação de curto prazo na ocupação. Quando a capacidade instalada supera a demanda real, essa rigidez produz custo sem receita correspondente. A tabela a seguir reproduz a apuração mês a mês para cada caso, com os dados primários extraídos dos sistemas de gestão de cada instituição.

Caso 1: Sudeste — hospital médio porte, 87% SUS
Taxa de ocupação global de 46,88%. A cada R$ 1,00 de custo direto incorrido, R$ 0,54 não geraram receita correspondente.

A taxa de ocupação manteve-se abaixo de 50% em cinco dos seis meses. A causa não é falta de demanda populacional. É falta de verba pactuada: o contrato com o SUS define um teto de produção financiada que não corresponde à capacidade instalada da instituição. O hospital foi dimensionado para um volume de atendimentos que a programação orçamentária do SUS não cobre. O resultado é superdimensionamento estrutural em relação à demanda financiada: leitos, escalas e contratos dimensionados para uma produção que o modelo de pagamento não autoriza.

A variação mensal da taxa de ociosidade, entre 50,1% e 58,1%, não produziu variação equivalente no custo total: abril e junho, com taxas de 56,4% e 50,1%, registram custos de ociosidade praticamente iguais. A rigidez do custo de pessoal absorve a variação de ocupação sem redução proporcional da despesa.

PeríodoCusto direto totalTaxa de ociosidadeCusto da ociosidadeVar. m/m
Janeiro/2025R$ 2.148.32858,11%R$ 1.248.394n.a.
Fevereiro/2025R$ 2.076.98755,60%R$ 1.154.805-7,5%
Março/2025R$ 2.352.53750,36%R$ 1.184.738+2,6%
Abril/2025R$ 2.122.17456,43%R$ 1.197.543+1,1%
Maio/2025R$ 2.036.10350,72%R$ 1.032.711-13,8%
Junho/2025R$ 2.327.50550,13%R$ 1.166.787+13,0%
Total 1S/2025R$ 13.063.63453,6% (média)R$ 6.984.978
Exercício 2025R$ 26.127.268R$ 13.969.956

Tabela 3: Caso 1. Custo direto = pessoal CLT e PJ diretamente vinculado às unidades. Fórmula: Custo da ociosidade = Custo direto × (1 − Taxa de ocupação). Fonte: análise Evodux.

R$ 6,98 mi
Custo ociosidade 1S/2025
Custos diretos de pessoal
R$ 13,97 mi
Projeção exercício 2025
Piso sem indiretos
R$ 19,6 mi
Com indiretos estimados
Teto conservador (+40%)
Caso 2: Rio de Janeiro — hospital próprio de OPS verticalizada
Taxa de ocupação global de 58,3%. Estrutura de 120 leitos com demanda equivalente a 84 leitos. Custo direto de pessoal de R$ 3,42 milhões mensais.
PeríodoCusto direto totalTaxa de ociosidadeCusto da ociosidadeVar. m/m
Janeiro/2025R$ 3.458.14744,90%R$ 1.552.708n.a.
Fevereiro/2025R$ 3.290.04243,80%R$ 1.441.038-7,2%
Março/2025R$ 3.358.44840,20%R$ 1.350.096-6,3%
Abril/2025R$ 3.344.27042,60%R$ 1.424.659+5,5%
Maio/2025R$ 3.484.69841,10%R$ 1.432.210+0,5%
Junho/2025R$ 3.468.34438,60%R$ 1.338.780-6,5%
Total 1S/2025R$ 20.403.94941,7% (média)R$ 8.539.491
Exercício 2025R$ 40.807.898R$ 17.078.982

Tabela 4: Caso 2. O custo do superdimensionamento não aparece como ociosidade no balanço da operadora: aparece como sinistralidade administrativa. Fonte: análise Evodux.

R$ 8,54 mi
Custo ociosidade 1S/2025
R$ 17,11 mi
Projeção exercício 2025
R$ 23,96 mi
Com indiretos (+40%)

O dado mais revelador da tabela não é o total. É a estabilidade mensal do custo de ociosidade apesar da variação de ocupação. Entre março (40,2% de ociosidade) e maio (41,1%), a diferença é de menos de 1 ponto percentual, mas o custo de ociosidade vai de R$ 1,35 milhão para R$ 1,43 milhão. A explicação é a mesma do Caso 1: escalas de pessoal dimensionadas para a capacidade instalada não respondem a variação de demanda da carteira. No Caso 2, o superdimensionamento é de origem atuarial, não tarifária, mas o efeito financeiro mensal é estruturalmente idêntico ao do Caso 1.

Caso 3: Mato Grosso — Santa Casa filantrópica, 94% planos
Taxa de ocupação global de 71,4%. O problema não é de volume. É de receita realizada. Dois componentes: ociosidade residual e glosa estrutural.

Com ocupação acima de 70%, este é o único caso em que o problema de ociosidade é secundário ao problema de receita não realizada. A glosa inicial alcançou 19,3% no primeiro semestre de 2025, contra média de 15,89% nos hospitais ANAHP. A taxa de recuperação após auditoria foi de 41%, versus 67% na amostra ANAHP, resultando em glosa líquida efetiva de 11,4%, equivalente a R$ 1,2 milhão mensal de receita permanentemente perdida.

PeríodoCusto diretoOciosidadeCusto ociosidadeGlosa estruturalTotal não realizado
Janeiro/2025R$ 1.733.74030,20%R$ 523.589R$ 1.200.000R$ 1.723.589
Fevereiro/2025R$ 1.625.45129,50%R$ 479.508R$ 1.200.000R$ 1.679.508
Março/2025R$ 1.670.50027,20%R$ 454.376R$ 1.200.000R$ 1.654.376
Abril/2025R$ 1.617.76728,20%R$ 456.210R$ 1.200.000R$ 1.656.210
Maio/2025R$ 1.643.16228,90%R$ 474.873R$ 1.200.000R$ 1.674.873
Junho/2025R$ 1.681.72026,50%R$ 445.655R$ 1.200.000R$ 1.645.655
Total 1S/2025R$ 9.972.34028,8%R$ 2.834.211R$ 7.200.000R$ 10.034.211
Exercício 2025R$ 19.944.680R$ 5.668.422R$ 14.400.000R$ 20.068.422

Tabela 5: Caso 3. Glosa estrutural = produção bruta × taxa de glosa inicial × (1 − taxa de recuperação pós-auditoria). Fonte: análise Evodux.

R$ 5,68 mi
Ociosidade residual 2025
Capacidade não utilizada
R$ 14,4 mi
Glosa estrutural 2025
Receita produzida não recebida
R$ 20,2 mi
Total não realizado 2025
Combinado
Caso 4: São Paulo — hospital dia especializado, 88% planos
Taxa de ocupação global ponderada de 54,7%. Turno da manhã: 91,4%. Turno da tarde: 43,7%. O custo fixo das escalas é idêntico nos dois turnos.

A métrica relevante em hospital dia não é o leito-dia. É a sala por turno. Uma sala de procedimentos com escala de anestesia, enfermagem e equipamentos de suporte custa aproximadamente o mesmo no turno da manhã e no turno da tarde, independentemente do volume realizado. A taxa de ocupação global de 54,7% obscurece a bifurcação: o turno da manhã opera com lista de espera ativa; o turno da tarde tem disponibilidade imediata em 60% das salas. O mix de receita agrava o problema: 88% dos atendimentos são remunerados por tabela de convênio, 12% por modelo pay-per-use, sem contrato fixo de volume mínimo. No turno da tarde, onde a utilização cai para 43,7%, a ausência de compromisso de volume das operadoras elimina qualquer garantia de receita sobre a capacidade ociosa.

PeríodoCusto direto totalTaxa de ociosidadeCusto da ociosidadeVar. m/m
Janeiro/2025R$ 2.807.00047,90%R$ 1.344.553n.a.
Fevereiro/2025R$ 2.860.00046,20%R$ 1.321.320-1,7%
Março/2025R$ 2.931.00044,20%R$ 1.295.501-2,0%
Abril/2025R$ 2.884.00045,40%R$ 1.309.335+1,1%
Maio/2025R$ 2.856.00044,60%R$ 1.273.775-2,7%
Junho/2025R$ 2.907.00043,50%R$ 1.255.824-1,4%
Total 1S/2025R$ 17.245.00045,3% (média)R$ 7.800.308
Exercício 2025R$ 34.490.000R$ 15.600.616

Tabela 6: Caso 4. Taxa de ociosidade = ponderação manhã/tarde. Cada sala adicional no turno da tarde equivale a R$ 72 mil mensais de receita recuperável. Fonte: análise Evodux.

R$ 7,80 mi
Custo ociosidade 1S/2025
R$ 15,34 mi
Projeção exercício 2025
R$ 21,48 mi
Com indiretos (+40%)

O dado mais revelador da tabela é a compressão do intervalo de variação: o custo de ociosidade cai de R$ 1,34 milhão em janeiro para R$ 1,26 milhão em junho, redução de apenas 6,6% em seis meses com ocupação ponderada subindo de 52,1% para 56,8%. A assimetria de turno cria um piso de custo que nenhum aumento de demanda matutina consegue reduzir, porque as escalas vespertinas permanecem alocadas independentemente do volume do turno da tarde. Os 12% de receita provenientes de contratos pay-per-use sem volume mínimo garantido concentram-se exatamente no turno onde esse custo fixo não tem cobertura.

Caso 5: Sul/Sudeste — alta complexidade, 12 operadoras
Taxa de ocupação global de 74,1%. Dois componentes: ociosidade seletiva nas unidades críticas e déficit de subsídio cruzado de R$ 2,1 milhões mensais.

Com 74,1% de ocupação global, o Caso 5 não tem problema de volume. Tem problema de precificação assimétrica. Oncologia, UTI Coronariana e Transplante Renal operam com tabelas de quatro das 12 operadoras defasadas entre 28% e 41% do custo real, gerando margem negativa de R$ 2,1 milhões mensais. Esse valor é apurado como média dos seis meses a partir do cruzamento das tabelas contratuais de cada operadora com a produção assistencial por unidade: é um déficit contratual, não uma variação operacional, o que explica sua estabilidade mês a mês enquanto a ociosidade seletiva varia. Esse déficit é financiado por subsídio cruzado das unidades com tabelas equilibradas, tornando-se contabilmente invisível no demonstrativo de resultado consolidado.

PeríodoCusto diretoOciosidadeOciosidade seletivaDéficit subsídio cruzadoTotal
Janeiro/2025R$ 2.841.19727,90%R$ 792.693R$ 2.100.000R$ 2.892.693
Fevereiro/2025R$ 2.794.49226,60%R$ 743.334R$ 2.100.000R$ 2.843.334
Março/2025R$ 2.789.61925,20%R$ 702.983R$ 2.100.000R$ 2.802.983
Abril/2025R$ 2.805.56826,10%R$ 732.253R$ 2.100.000R$ 2.832.253
Maio/2025R$ 2.922.71825,70%R$ 751.138R$ 2.100.000R$ 2.851.138
Junho/2025R$ 2.806.19124,20%R$ 679.098R$ 2.100.000R$ 2.779.098
Total 1S/2025R$ 16.959.785R$ 4.401.499R$ 12.600.000R$ 17.001.499
Exercício 2025R$ 33.919.570R$ 8.802.998R$ 25.200.000R$ 34.002.998

Tabela 7: Caso 5. Déficit de subsídio cruzado = R$ 2,1 mi mensais via cruzamento de tabelas contratuais com produção por unidade. Fonte: análise Evodux.

R$ 8,80 mi
Ociosidade seletiva 2025
Unidades com tabela defasada
R$ 25,2 mi
Subsídio cruzado 2025
Transferência interna de margem
R$ 34,0 mi
Total do problema 2025
Combinado

Síntese comparativa: custo da ociosidade nos cinco casos

CasoOcupaçãoRef. ANAHPCusto do problemaTeto c/ indiretosRedução possível
Caso 1: Sudeste46,88%78,97%R$ 13,97 miR$ 19,6 miR$ 4,5 mi
Caso 2: Rio de Janeiro58,3%78,97%R$ 17,11 miR$ 23,96 miR$ 6,4 mi
Caso 3: Mato Grosso71,4%78,97%R$ 20,2 mi~R$ 28 miR$ 7,8 mi
Caso 4: São Paulo54,7%78,97%R$ 15,34 miR$ 21,48 miR$ 7,2 mi
Caso 5: Sul/Sudeste74,1%78,97%R$ 34,1 mi~R$ 48 miR$ 11,4 mi

Tabela 8. Custo do problema = piso de custos diretos de pessoal, exercício 2025. Redução possível = cenário otimista. Caso 3 inclui glosa estrutural; Caso 5 inclui déficit de subsídio cruzado. Fontes: análise Evodux; Observatório ANAHP 2025.

Seção III

Cinco mecanismos distintos: por que a mesma intervenção não funciona nos cinco casos

Os dados mensais da Seção II revelam dois padrões que nenhum indicador setorial captura: o custo de ociosidade não varia proporcionalmente à ocupação, e persiste independentemente do mix de receita. São cinco mecanismos causais distintos. Tratar os cinco com a mesma intervenção não reduz o custo. Redistribui o impacto sem eliminar a causa.
CasoOcupaçãoMecanismoExpressão financeira do problema
Caso 146,88%Dependência tarifária SUSTarifa cobre menos de 50% do custo. Leitos ociosos por falta de verba pactuada, não de demanda. R$ 0,54 de cada R$ 1,00 sem receita.
Caso 258,3%Superdimensionamento de rede própriaEstrutura para 280 mil vidas serve 210 mil. Custo aparece como sinistralidade, não como ociosidade.
Caso 371,4%Glosa estrutural e concentração de pagadoresGlosa líquida de 11,4%. 2 pagadores = 78% da receita. Maternidade a 78% de ocupação com margem negativa.
Caso 454,7%Assimetria de utilização por turnoManhã: 91,4%. Tarde: 43,7%. Custo das escalas é idêntico nos dois turnos. 12% de receita pay-per-use no turno ocioso.
Caso 574,1%Subsídio cruzado por tabela assimétricaR$ 25,2 mi/ano transferidos internamente. Invisível no DRE consolidado. Solução é renegociação por unidade, não aumento de volume.

Tabela 9. Síntese dos mecanismos por caso. Fonte: análise Evodux.

Caso 1: Dependência Tarifária SUS

O diferencial de 32 p.p. em relação ao benchmark ANAHP não é de gestão. É de estrutura de financiamento.
Hospital médio porte, Sudeste. 87% SUS. Ocupação: 46,88%.

O mecanismo opera em quatro etapas encadeadas. Primeiro: o contrato com o SUS estabelece um teto de produção financiada inferior à capacidade física instalada. Segundo: sem autorização orçamentária além desse teto, a demanda populacional existe mas não se converte em produção realizada. Terceiro: o hospital permanece superdimensionado em relação à demanda financiada, com escalas e estrutura de pessoal dimensionados para um volume que o modelo de pagamento não cobre.

Quarto: o custo fixo é integralmente alocado sobre a produção parcial autorizada, produzindo o R$ 0,54 de custo sem receita que a Seção II quantificou mês a mês. Nenhuma das quatro etapas é corrigível por ajuste operacional. A cadeia começa no contrato com o SUS, não na escala de pessoal.

Caso 2: Superdimensionamento de Rede Própria

120 vs. 84 leitos
Capacidade instalada vs. demanda real
Estrutura dimensionada para 280 mil vidas. Carteira atual: 210 mil.
R$ 342 mil/ano
Impacto de cada 1 p.p. de queda na hospitalização
Redução de receita sem redução proporcional de custo fixo.

O custo do superdimensionamento não aparece como ociosidade no balanço da operadora. Aparece como sinistralidade administrativa. Essa invisibilidade não é um problema de comunicação. É o mecanismo pelo qual o problema se perpetua: o gestor hospitalar não vê o custo como ociosidade porque o demonstrativo não o classifica assim, e o atuário não dimensiona o impacto porque o custo está diluído na sinistralidade total da carteira.

O hospital foi dimensionado para 280 mil vidas; a carteira atual é de 210 mil, com taxa de hospitalização 31% inferior à premissa original, em parte pela expansão de cobertura ambulatorial substitutiva implementada pela própria operadora entre 2021 e 2023. O problema só se torna gerenciável quando sai da conta de sinistralidade e entra na apuração de ociosidade por unidade.

Caso 3: Glosa Estrutural e Concentração de Pagadores

11,4%
Glosa líquida efetiva 1S/2025
Equivale a R$ 1,2 milhão mensal de receita permanentemente perdida.
78% da receita
Concentração em 2 pagadores dominantes
Elimina o poder de barganha em qualquer negociação de tabela.

O mecanismo é de poder de barganha, não de volume. Com dois pagadores respondendo por 78% da receita bruta, a Santa Casa não tem alternativa viável ao descredenciamento de nenhum dos dois. Sem essa alternativa, qualquer negociação de tabela parte de uma posição de rendição: aceitar o reajuste proposto ou perder 39% da receita.

O resultado documentado na Seção II, reajuste de 4,1% contra variação de custos de 12,7% em 2024, não é uma anomalia de um exercício. É o padrão previsível de qualquer negociação em que uma das partes não tem BATNA. A glosa incide seletivamente sobre especialidades de maior complexidade, produzindo o paradoxo que os dados revelam: a Maternidade opera a 78,2% de ocupação, acima do benchmark ANAHP, com margem negativa por glosa de 31%.

Caso 4: Assimetria de Utilização por Turno

91,4%
Utilização turno da manhã
Lista de espera ativa em 4 das 8 salas. Demanda existe.
43,7%
Utilização turno da tarde
Disponibilidade imediata em 60% das salas. Demanda inelástica ao turno.

A métrica relevante em hospital dia não é o leito-dia. É a sala por turno. O custo fixo das escalas de anestesia, enfermagem e equipamentos é idêntico nos dois turnos, independentemente do volume. A lista de espera matutina não migra para a tarde por determinantes clínicos documentados: pacientes oncológicos recusam o turno da tarde em 74% dos casos por contraindicação de náusea vespertina; o jejum matinal é incompatível com agendamento vespertino sem pernoite; cirurgiões preferem turnos matutinos por agenda de consultório.

A demanda existe, mas é inelástica quanto ao turno. Os 12% de receita provenientes de contratos pay-per-use sem volume mínimo garantido concentram-se no turno da tarde, onde as operadoras não têm obrigação de encaminhar volume. Cada sala adicional preenchida no turno da tarde equivale a R$ 72 mil mensais de receita recuperável sem incremento de custo.

Caso 5: Subsídio Cruzado por Tabela Assimétrica

R$ 2,1 mi/mês
Déficit mensal nas unidades críticas
Oncologia, UTI Coronariana e Transplante Renal. 4 de 12 operadoras com tabela defasada 28-41%.
R$ 25,2 mi
Subsídio cruzado anual documentado
Transferência interna das unidades com tabela equilibrada. Invisível no DRE consolidado.

Com 74,1% de ocupação global, o Caso 5 não tem problema de volume. Tem problema de precificação assimétrica por unidade e por pagador. O subsídio cruzado é contabilmente invisível porque os contratos com as 12 operadoras são consolidados na receita total do hospital sem segregação. A apuração reconstrói essa segregação a partir dos dados de produção por unidade cruzados com as tabelas contratuais de cada operadora.

O Caso 5 é o único dos cinco em que aumentar volume e diversificar mix não resolvem o problema. A solução é renegociar contratos específicos com operadoras específicas, utilizando o custeio por unidade como base técnica. Sem essa granularidade, qualquer negociação é conduzida no agregado, onde o subsídio cruzado permanece invisível e a operadora não tem incentivo para rever a defasagem.

Implicação coletiva dos cinco casos: Nenhum instrumento de regulação setorial hoje captura o custo da ociosidade por unidade por instituição. A ANS monitora sinistralidade e beneficiários. O ANAHP monitora ocupação e desempenho agregado. O CNES registra capacidade instalada. Nenhum desses instrumentos captura o dado que diferencia um diagnóstico acionável de uma tendência setorial. Os cinco casos são a evidência de que a gestão hospitalar sustentável no setor privado brasileiro exige granularidade que nenhuma fonte pública produz. A apuração por unidade não é uma ferramenta avançada. É o pré-requisito mínimo para qualquer decisão gerencial com base factual.
Seção IV

O custo da inação cresce a cada exercício. A janela de intervenção tem prazo.

A pressão de custos de pessoal, que cresceu 2,32 p.p. em participação nas despesas dos hospitais ANAHP entre 2023 e 2024, atua sobre todos os cinco perfis. Sem intervenção, cada caso piora por inércia. O vetor de intervenção de cada caso segue diretamente o diagnóstico da Seção III.
R$ 161 mil a R$ 375 mil é o custo mensal de cada mês de atraso na decisão do Caso 1, dependendo do cenário. Nos cinco casos, a diferença entre base e otimista em 2026 varia de R$ 6,4 mi a R$ 11,4 mi. O custo da inação não é estático.

Os cenários a seguir têm premissas explícitas derivadas dos mecanismos identificados na Seção III. Não é possível reduzir glosa com credenciamento de operadoras, nem resolver subsídio cruzado com aumento de ocupação. O mecanismo determina a intervenção.

Cenário base: o custo da inação por perfil (2026 sem intervenção)

Caso 1
R$ 14,9 mi
2026 sem interv.
Caso 2
R$ 18,2 mi
2026 sem interv.
Caso 3
R$ 21,5 mi
2026 sem interv.
Caso 4
R$ 16,4 mi
2026 sem interv.
Caso 5
R$ 36,4 mi
2026 sem interv.

Sem intervenção, todos os cinco casos pioram em 2026 pelo mesmo vetor: custos de pessoal crescendo acima de qualquer reajuste tarifário. O Caso 5 cresce mais em valor absoluto (de R$ 34,1 mi para R$ 36,4 mi). O Caso 1 é o único que já cruzou o limiar de 30 p.p. de distância do benchmark ANAHP a partir do qual reversão sem aporte de capital não é documentada nas séries históricas.

Cenários por caso: premissas e vetores de intervenção

Cada cenário parte do mecanismo diagnosticado na Seção III. O vetor de intervenção é específico ao diagnóstico.

Caso
Caso 1: Sudeste SUS
Custo
2025: R$ 13,97 mi
2026: R$ 14,9 mi
Redução otimista
R$ 4,5 mi (32,2%)
Horizonte
24 a 36 meses
Vetor
Credenciamento + diversificação de mix

O mecanismo é tarifário e de mix. O cenário moderado (R$ 1,91 mi) parte de credenciamento com duas a três operadoras da região e ajustes de escala por turno, sem redesenho de estrutura. Metas de 55% a 65% calibradas pelo padrão ANAHP: instituições que iniciaram credenciamento saíram de 44% e atingiram 58% em 14 meses.

O cenário otimista (R$ 4,5 mi) exige elevar o mix de planos de 13% para 25-30%. A demanda existe: Sudeste concentra 31 mi de beneficiários, crescimento de 1,3 mi/ano. A restrição é de capacidade: UTI Adulto a 90% e Emergência a 84% não absorvem volume. O crescimento de mix concentra-se nas unidades com folga estrutural.

Caso
Caso 2: OPS Rio de Janeiro
Custo
2025: R$ 17,11 mi
2026: R$ 18,2 mi
Redução otimista
R$ 6,4 mi (37,4%)
Horizonte
24 a 36 meses
Vetor
Redimensionamento + abertura eletiva

O mecanismo é de superdimensionamento atuarial. O cenário otimista projeta redução de R$ 6,4 mi via redimensionamento funcional das três unidades críticas (Centro Cirúrgico Eletivo 44,2%, Maternidade 39,7%, Reabilitação 33,1%) combinado com abertura de 30% da capacidade eletiva para credenciamento externo.

Esse movimento preserva o modelo verticalizado e o controle de sinistralidade sem exigir mudança de modelo societário. O horizonte de 24 a 36 meses incorpora tempo de negociação contratual e ramp-up de produção.

Caso
Caso 3: Santa Casa MT
Custo
2025: R$ 20,2 mi
2026: R$ 21,5 mi
Redução otimista
R$ 7,8 mi (38,6%)
Horizonte
24 a 30 meses
Vetor
Diversificação de pagadores

O mecanismo é de poder de barganha eliminado pela concentração em dois pagadores. O cenário otimista projeta redução de R$ 7,8 mi via diversificação para cinco ou mais operadoras, reduzindo a dependência dos dois dominantes de 78% para abaixo de 50% da receita.

A viabilidade regional existe: cobertura suplementar do Centro-Oeste cresce 1,8 p.p./ano com espaço para autogestão do agronegócio regional. O horizonte é mais curto que o Caso 1 porque não exige mudança de mix de produção, apenas diversificação de contratos sobre produção já existente.

Caso
Caso 4: Hospital Dia SP
Custo
2025: R$ 15,34 mi
2026: R$ 16,4 mi
Redução otimista
R$ 7,2 mi (46,9%)
Horizonte
18 a 24 meses
Vetor
Redesenho de agendamento

O Caso 4 tem o maior potencial relativo de redução (46,9%) porque o problema é de distribuição, não de volume: a demanda existe no turno da manhã mas é clinicamente inelástica ao turno da tarde. O cenário otimista projeta R$ 7,2 mi via redesenho integral de agendamento e turno noturno seletivo para dois procedimentos sem contraindicação vespertina.

O horizonte de 18 a 24 meses é o mais curto dos cinco porque não depende de credenciamento de novas operadoras nem de mudança de mix. Cada sala adicional no turno da tarde equivale a R$ 72 mil mensais sem incremento de custo fixo.

Caso
Caso 5: Alta Complexidade
Custo
2025: R$ 34,1 mi
2026: R$ 36,4 mi
Redução otimista
R$ 11,4 mi (33,4%)
Horizonte
24 a 36 meses
Vetor
Renegociação por unidade + VBC

O Caso 5 é o único em que aumentar volume e diversificar mix não resolvem o problema. O cenário moderado (R$ 4,2 mi) opera pela renegociação das quatro operadoras defasadas (28-41% abaixo do custo real), usando custeio por unidade como base técnica e meta de 82% de cobertura como condição de renovação contratual.

O cenário otimista (R$ 11,4 mi) projeta modelo de remuneração baseada em valor com três operadoras âncora. Sem a segregação por unidade e por pagador que a apuração produz, qualquer negociação é conduzida no agregado onde o subsídio cruzado permanece invisível.

Seção V

Os vetores de intervenção por caso e por unidade

Tratar os cinco casos com a mesma medida dilui o impacto. O vetor de intervenção no Caso 1 é credenciamento. No Caso 3 é diversificação de pagadores. No Caso 5 é renegociação de tabelas por unidade. O mecanismo tem que seguir o diagnóstico.

Caso 1: dois grupos, dois mecanismos

Reduzir a ociosidade do Caso 1 não é uma questão de medida comercial única. É uma questão de diagnóstico preciso por unidade. Obstetrícia, UTI Neonatal e Nefrologia, com ociosidade acima de 55%, exigem aumento de volume via articulação de rede. Clínica Médica, Pediatria e Ginecologia, com ociosidade entre 47% e 49%, têm potencial de recuperação mais imediato via diversificação de mix. Cada ponto percentual de aumento de ocupação nas três unidades críticas representa R$ 23 mil de redução mensal no custo da ociosidade.

UnidadeOcupação atualMeta moderadaRedução anualVetor principal
Obstetrícia36,11%55%R$ 440 mil/anoCredenciamento com operadoras; expansão de pré-natal
UTI neonatal41,78%60%R$ 380 mil/anoArticulação com maternidades; protocolos de transferência
Nefrologia41,38%60%R$ 360 mil/anoParcerias com instituições de referência; ampliação cobertura SUS
Clínica médica47,23%65%R$ 390 mil/anoCaptação de planos de saúde; diversificação de convênios
Pediatria48,33%65%R$ 340 mil/anoProgramas preventivos; planos familiares e coletivos
Total cenário moderadon.a.n.a.R$ 1,91 mi/anoRedução de 13,7% no custo da ociosidade

Tabela 10. Caso 1. Fonte: análise Evodux.

Pré-condição transversal ao Caso 1: Nenhum dos cenários projetados é executável com precisão sem a definição de critérios de rateio de custos indiretos por unidade. A ausência desses critérios mantém o custo real da ociosidade subestimado e impede a comparação consistente com os parâmetros do Observatório ANAHP. Definir as regras de rateio não é um exercício contábil. É o que transforma R$ 13,97 milhões em um número gerenciável com teto visível.

Síntese: vetores de intervenção nos cinco casos

CasoVetor principalCenário moderadoCenário otimistaHorizonte
Caso 1Credenciamento + diversificação de mixR$ 1,91 mi/anoR$ 4,5 mi/ano12-36 meses
Caso 2Redimensionamento + abertura eletiva a terceirosn.d.R$ 6,4 mi/ano24-36 meses
Caso 3Diversificação de pagadores + gestão de glosan.d.R$ 7,8 mi/ano24-30 meses
Caso 4Redesenho de agendamento + turno noturno seletivon.d.R$ 7,2 mi/ano18-24 meses
Caso 5Renegociação de tabelas + modelo VBC com âncorasR$ 4,2 mi/anoR$ 11,4 mi/ano24-36 meses

Tabela 11. n.d. = cenário moderado não detalhado neste paper para os Casos 2 a 4 por ausência de dados mensais completos. O Caso 5 tem cenário moderado documentado via renegociação das quatro operadoras com maior defasagem. Fonte: análise Evodux.

O Caso 2 opera com três unidades abaixo de 45% de ocupação: Centro Cirúrgico Eletivo (44,2%), Maternidade (39,7%) e Reabilitação (33,1%). O vetor de intervenção é duplo: redimensionamento funcional dessas três unidades, com reescalonamento de equipes para demanda real, combinado com abertura de 30% da capacidade eletiva para credenciamento com operadoras externas. Cada ponto percentual de recuperação de ocupação nas três unidades representa R$ 41 mil mensais de redução no custo da ociosidade. A pré-condição é a segregação do custo por unidade no demonstrativo da operadora, que hoje consolida tudo em sinistralidade. Sem essa segregação, o redimensionamento não tem base técnica e a negociação com o corpo clínico não tem argumento verificável.

O Caso 3 tem a glosa distribuída de forma assimétrica por especialidade. Maternidade, Cardiologia e Ortopedia respondem por 61% da glosa líquida total, com taxa de recuperação pós-auditoria de apenas 38%, contra 67% na amostra ANAHP. O vetor de intervenção tem duas frentes simultâneas: diversificação de pagadores, reduzindo a dependência das duas operadoras dominantes de 78% para abaixo de 50% da receita em 24 meses, e estruturação de equipe interna de auditoria de contas nas três especialidades de maior perda. Cada ponto percentual de redução na glosa líquida representa R$ 105 mil mensais de receita recuperada. A viabilidade regional existe: autogestões do agronegócio do Centro-Oeste têm base de beneficiários crescente e déficit de rede hospitalar credenciada nas três especialidades de maior glosa do Caso 3.

O Caso 4 tem o maior potencial relativo de redução (46,9%) e o horizonte mais curto (18 a 24 meses) porque a intervenção não depende de novos credenciamentos. Depende de redesenho de agendamento. Os dois procedimentos sem contraindicação vespertina documentada são cirurgia de catarata e endoscopia diagnóstica. Juntos, respondem por 23% do volume atual do turno da manhã e têm lista de espera de 34 dias no turno matutino. Migrá-los parcialmente para o turno da tarde libera capacidade matutina para procedimentos de maior complexidade e reduz a ociosidade vespertina de 43,7% para estimados 31-34%. Nenhuma nova escala é necessária. O custo do redesenho é a comunicação com o corpo clínico e a inclusão de cláusula de distribuição de turno nos 12% de contratos pay-per-use.

O Caso 5 é o único em que a prescrição começa na mesa de negociação, não na gestão operacional. As quatro operadoras com tabelas defasadas respondem por 31% da receita total, mas por 78% do déficit. O primeiro passo é produzir e formalizar o custeio por unidade e por procedimento para as três especialidades críticas e apresentar esse custeio na próxima renovação contratual. A meta de cobertura mínima de 82% do custo real como condição de renovação não é uma posição de ruptura: é a formalização do que o mercado já paga nas outras oito operadoras equilibradas. O modelo de remuneração baseada em valor com três operadoras âncora é a etapa seguinte para as especialidades onde o hospital tem vantagem comparativa documentada.

Seção VI

A janela de decisão de 2026

Três forças estruturais convergem em 2026 sobre os mesmos cinco perfis analisados. Cada uma atua de forma diferente em cada caso. Em conjunto, elas criam uma bifurcação: quem já tem o custo da ociosidade apurado por unidade pode capturar a expansão suplementar antes que a deterioração de recebimentos se acumule. Quem não tem vai enfrentar as três forças simultaneamente sem saber qual atacar primeiro.

Três forças que definem a trajetória de 2026

Força 1: Pressão crescente de custos de pessoal
VCMH/IESS de dois dígitos nas edições 2024-2026. Participação de pessoal cresceu 2,32 p.p. nas despesas dos hospitais ANAHP só entre 2023 e 2024. Para os Casos 1 e 2, essa pressão atua sobre uma base de custo já superdimensionada em relação à receita autorizada. Para o Caso 5, amplifica o déficit das unidades críticas com tabela defasada: cada ponto de pressão de custo aumenta o subsídio cruzado que as unidades equilibradas precisam absorver.
Casos mais expostos: 1 (87% SUS, sem margem de repasse) e 5 (subsídio cruzado de R$ 25,2 mi/ano que cresce com o custo).
Força 2: Deterioração de recebimentos
Glosa inicial dos hospitais ANAHP saltou de 11,89% para 15,89% em 2024. Inadimplência das operadoras subiu de 49,96% para 61,53% no mesmo período. Para os Casos 3 e 5, que dependem integralmente de planos de saúde, esse vetor é de impacto imediato. O Caso 3 já opera com glosa líquida de 11,4% e dois pagadores com 78% da receita sem poder de renegociação. Qualquer piora na recuperação de contas amplifica o problema já documentado.
Casos mais expostos: 3 (glosa estrutural) e 5 (quatro operadoras com tabela defasada 28-41%).
Força 3: Expansão da saúde suplementar
53,3 milhões de beneficiários em janeiro de 2026. Crescimento de 1,3 milhão em doze meses (ANS). Cobertura em expansão em todas as regiões. Para os Casos 1 e 2, essa expansão é a janela de reversão de mix. O Caso 1 está a 32 p.p. do benchmark ANAHP mas tem a demanda suplementar crescendo a 1,3 mi/ano na região. O Caso 2 tem 84 leitos de demanda real em estrutura de 120: a expansão da carteira é o mecanismo mais direto de reversão. Para os Casos 3, 4 e 5, representa pressão adicional de volume sobre estruturas já com limitações de precificação ou capacidade.
Janela de oportunidade: Casos 1 e 2. Risco adicional se não reposicionados: Casos 3 e 5.

A combinação das três forças não é simétrica. Para os Casos 1 e 2, existe uma janela de dois a três anos em que a expansão suplementar pode compensar a pressão de custos, desde que o credenciamento e o mix se movam antes que a deterioração de recebimentos se acumule. Para os Casos 3 e 5, a janela não é de reversão de mix: é de renegociação contratual antes que a glosa e o subsídio cruzado consumam a margem das unidades equilibradas que hoje os financiam. Para o Caso 4, o horizonte é o mais curto e a intervenção mais acessível: 18 a 24 meses, sem necessidade de novos credenciamentos.

Ponto de vista Evodux

A ANS documenta a escala do sistema suplementar. O Observatório ANAHP documenta o desempenho dos hospitais privados de alta complexidade. Nenhuma dessas fontes responde a pergunta que importa para o gestor hospitalar: quanto custa, especificamente, a ociosidade de cada unidade da sua instituição este mês. Esse número não existe em nenhuma base de dados pública. Ele só existe depois de uma apuração primária por unidade.

A análise Evodux demonstra que esse número é apurável, que os dados necessários já existem nos sistemas de gestão de cada instituição, e que o processo de apuração é replicável em qualquer perfil hospitalar com dados primários mensais.

Nos cinco casos documentados neste paper, o custo da ociosidade variou de R$ 13,97 mi a R$ 34,1 mi por ano. Em todos os cinco, o número não existia antes. Em todos os cinco, a visibilidade abriu uma decisão que antes era impossível de tomar com base factual. Em cada caso, o vetor de intervenção ficou claro a partir do momento em que o custo foi segregado por unidade.

Essa é a oportunidade que permanece aberta para qualquer instituição hospitalar que ainda não fez essa apuração: não o custo de fazer, mas o custo que continua acumulando enquanto o número permanece invisível.

O custo da ociosidade não apurada é o maior custo gerenciável do setor hospitalar privado brasileiro. A oportunidade está exatamente onde o problema esteve por anos: invisível, mensurável, e pronto para ser atacado por quem decidir apurar primeiro.

Apêndice: Nota Metodológica

Os cinco casos cobrem o primeiro semestre de 2025. Dados de produção e ocupação foram extraídos dos relatórios mensais dos sistemas de gestão hospitalar de cada instituição. Custos de pessoal extraídos das folhas de pagamento (CLT) e notas fiscais de serviços (PJ) diretamente vinculados às unidades analisadas. Dados de glosa (Caso 3) extraídos dos sistemas de faturamento e controle de contas. Dados de margem por operadora (Caso 5) construídos a partir do cruzamento de tabelas contratuais com produção assistencial por unidade.

Fórmula base aplicada aos Casos 1, 2 e 4: Custo da ociosidade = Custo direto total × (1 − Taxa de ocupação).

Para o Caso 3: Custo da glosa estrutural = Produção bruta × Taxa de glosa inicial × (1 − Taxa de recuperação pós-auditoria).

Para o Caso 5: Subsídio cruzado = Produção por unidade × (1 − Cobertura tarifária das operadoras defasadas) × Participação dessas operadoras no mix da unidade.

As projeções do 2S/2025 assumem manutenção do padrão estrutural observado no 1S/2025. Os tetos de custo incorporam acréscimo de 40% sobre custos diretos para estimativa de indiretos, premissa conservadora e inferior à proporção ANAHP de 60,97%.

Fontes de referência setorial

ANAHP — Observatório ANAHP 2025. 119 hospitais respondentes. Exercício 2024.

ANS — Painel Econômico-Financeiro da Saúde Suplementar. Fechamento 2025. Divulgado em 17/03/2026.

ANS — Caderno de Informações de Saúde Suplementar. Janeiro de 2026. Dados de beneficiários.

CMB — Confederação das Santas Casas. Posicionamento sobre defasagem da Tabela SUS. 2024.

VCMH/IESS — Índice de Variação de Custos Médico-Hospitalares. Edições 2024 a 2026.

Bittar (2024) — Hospitais e leitos públicos e privados no Brasil. Revista de Administração em Saúde, v.24, n.97.

DATASUS/CNES — SIH Sistema de Informações Hospitalares.

Moody's Local Brasil — Setor de Saúde no Brasil. Estudo Setorial, janeiro de 2025.

Lei 14.820/2024 — Revisão periódica da remuneração de serviços hospitalares filantrópicos ao SUS. Sancionada em 16/01/2024.

Sobre Este Estudo

Este estudo foi elaborado pela Evodux Intelligence com base em dados operacionais e financeiros de cinco instituições hospitalares brasileiras, referentes ao primeiro semestre de 2025. Os perfis cobrem hospital de médio porte com dependência majoritária do SUS (Sudeste), hospital próprio de operadora verticalizada (Rio de Janeiro), Santa Casa filantrópica com mix exclusivamente suplementar (Mato Grosso), hospital dia especializado (São Paulo) e hospital de alta complexidade credenciado a múltiplas operadoras (Sul/Sudeste).

A identidade de todas as instituições foi preservada em conformidade com os protocolos de confidencialidade da Evodux. Os dados setoriais provêm de fontes públicas e institucionais identificadas acima. Todas as conclusões e projeções são de responsabilidade da Evodux Intelligence.

Evodux Intelligence  |  26 de Abril de 2026  |  Confidencial

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