Análise Setorial

O Custo Assistencial Oculto:
Causas Estruturais e Implicações
para Operadoras e Hospitais

Por que organizações que sabem o preço de cada procedimento
não sabem quanto custa nenhum tratamento.

O setor de saúde suplementar brasileiro opera com um conjunto sofisticado de instrumentos para controlar o preço unitário do procedimento assistencial. Sistemas de autorização, tabelas de remuneração, auditoria e glosa capturam com precisão o que é feito. Nenhum desses instrumentos captura o custo do que é tratado.

Essa lacuna estrutural produz uma distância sistemática entre o custo contratado e o custo real da jornada clínica. Esta análise documenta sua composição, sua magnitude e seu padrão de manifestação a partir de nove anos de dados em 65 organizações. O desvio médio observado é de 30% sobre o custo contratado.

Organizações que implementaram o custeio por jornada capturaram entre 12% e 28% de eficiência econômica estrutural nos primeiros 18 meses. O padrão é consistente independentemente do porte. A variável determinante é a presença do instrumento, não o diagnóstico do problema.

Key Finding
O desvio médio entre o custo contratado e o custo real da jornada clínica é de 30% em oncologia. Em 89% dos projetos analisados, esse desvio acumulava perdas por mais de 2,3 anos antes de ser identificado.
01

O custo do tratamento é estruturalmente ausente
dos instrumentos que o setor construiu.

O modelo fee-for-service remunera por procedimento executado. Para operar, ele requer uma única informação: que o procedimento tenha preço. O custo da jornada completa, a variação clínica entre dois pacientes com o mesmo diagnóstico, o custo-hora de estrutura por protocolo e a margem efetiva de um tratamento oncológico não são exigidos pelo modelo. Por essa razão, não foram construídos.

A OECD estima que 20% dos gastos em saúde nos países membros são desperdiçados por ineficiências estruturais (2017). Shrank et al. documentaram US$ 760 a 935 bilhões em desperdício anual nos Estados Unidos (JAMA, 2019). No Brasil, o fenômeno se manifesta no intervalo entre o custo contratado e o custo real da jornada assistencial.

O Custo Assistencial Oculto é composto por três elementos estruturais: variação clínica sem referência de custo (14% do desvio médio), custo-hora de estrutura fora do contrato (9%) e ociosidade operacional não alocada (7%). Sua soma produz o desvio médio de 30% documentado na base de 65 projetos.

Exhibit 1
Composição do Custo Assistencial Oculto
Distribuição percentual por componente · mediana de 65 projetos · 2016-2025
Componente Participação Corrigível em
Variação clínica sem referência de custo 14% 30–90 dias
Custo-hora de estrutura fora do contrato 9% 30–90 dias
Ociosidade operacional não alocada 7% 60–180 dias
Total médio do Custo Assistencial Oculto 30% 18 meses
Fonte: base proprietária Evodux, 65 projetos, 2016-2025. Consistente com OECD, 2017 e Shrank et al., JAMA, 2019.
02

A correção do custo oculto produz resultado financeiro
mensurável em menos de 90 dias.

A pesquisa com gestores de 65 organizações ao longo de nove anos documenta o padrão com consistência. 91% declararam que o Custo Assistencial Oculto não era mensurável antes do custeio por jornada. 73% dos CFOs declararam não conhecer o custo real de seus cinco protocolos mais frequentes.

30% de desvio médio entre custo contratado e custo real da jornada
91% dos gestores: custo oculto não era mensurável antes do custeio por jornada
2,3a tempo médio de acúmulo invisível antes de ser identificado
Base: 65 projetos em operadoras, hospitais e clínicas, 2016-2025.

Dois casos ilustram a manifestação do fenômeno em contextos distintos.

Caso 01 · Operadora de Médio Porte · 280.000 Beneficiários · Sudeste
Contratos oncológicos representavam 31% do custo total. O time financeiro dispunha do custo por procedimento. O custo por tratamento era desconhecido. O Custo Assistencial Oculto acumulava perdas há mais de dois anos. Da precificação integrada de 47 protocolos, 18 operavam com margem negativa para a operadora, sem que nenhuma das partes soubesse.
R$ 47,3 mi em custo oculto identificado  ·  −4,3 pp na sinistralidade em 18 meses  ·  ROI 11,2x
Caso 02 · Hospital Oncológico de Referência · 180 Leitos
Margem operacional negativa em 23% dos protocolos mais frequentes. A causa estava em 94 protocolos cujo custo real de execução era 34% superior ao preço contratado. O custo-hora de estrutura e a ociosidade operacional permaneciam fora do cálculo de qualquer das partes.
R$ 23,7 mi em margem recuperada no 1º ano  ·  −19,4% na ociosidade cirúrgica  ·  94 protocolos corrigidos
03

O instrumento de custeio por jornada altera
a natureza das decisões disponíveis.

A análise de 65 organizações documenta o intervalo de eficiência capturada nos primeiros 18 meses após a implementação do custeio por jornada: entre 12% e 28% de eficiência econômica estrutural. O resultado se mantém independentemente do porte da organização e da sua modalidade jurídica.

A distinção crítica é entre diagnóstico e implementação. Organizações que identificaram o Custo Assistencial Oculto sem implementar o protocolo precificado não capturaram resultado econômico. O diagnóstico é condição necessária. A implementação é condição suficiente.

Dimensão Com protocolo precificado Sem protocolo precificado
Custo por tratamento Disponível antes da execução Apurado após o resultado, quando apurado
Custo oculto por protocolo Identificável e corrigível Acumula em silêncio
Base de negociação contratual Custo real da jornada Tabela unitária de procedimento
Margens negativas Identificadas em 30–90 dias Persistem sem causa rastreada
Ociosidade operacional Mensurável e alocável Fora do cálculo de custo
Fonte: base proprietária Evodux, 65 projetos, 2016-2025.
04

O Custo Assistencial Oculto é uma perda presente,
não um risco futuro.

Com inflação médica projetada de 11% para 2026, 44% das operadoras encerrando 2024 com prejuízo operacional e 69% das operadoras nas Américas identificando o câncer como principal pressão de custos, a magnitude do Custo Assistencial Oculto passou a determinar a viabilidade econômica das organizações no segmento de maior complexidade do setor.

A dinâmica de acúmulo observada em 89% dos projetos indica que o custo oculto se instala antes de qualquer sinal financeiro identificável. O intervalo médio entre o início do acúmulo e a identificação é de 2,3 anos. Esse padrão é independente do porte da organização e do volume de contratos oncológicos.

Recomendação
Iniciar o custeio por jornada antes do próximo ciclo de negociação contratual.
Organizações que implementaram o protocolo clínico precificado capturaram entre 12% e 28% de eficiência econômica estrutural nos primeiros 18 meses. O diagnóstico do custo oculto é a etapa inicial. A implementação do instrumento é a etapa que produz resultado. Organizações que completaram apenas o diagnóstico não registraram captura de eficiência.
O Custo Assistencial Oculto já está presente na operação.
O instrumento para torná-lo visível existe.
A janela para implementá-lo antes do próximo ciclo contratual é limitada.
Sobre Esta Pesquisa
Esta análise é baseada em 65 projetos realizados entre 2016 e 2025 em operadoras, hospitais e clínicas com faturamento anual acima de R$ 50 milhões. Metodologia: custeio por protocolo com alocação de custo-hora. Base proprietária: mais de 20.000 protocolos clínicos precificados.
Referências
ANS. Painel Econômico-Financeiro da Saúde Suplementar. Agência Nacional de Saúde Suplementar, 3º trimestre 2025.
ABRAMGE. Panorama da Saúde Suplementar. Associação Brasileira de Planos de Saúde, 2025.
DRG BRASIL; VALOR SAÚDE BRASIL. Análise de variação clínica em custos assistenciais, 2023.
IESS. Impacto das fraudes e desperdícios sobre o gasto com saúde suplementar. Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, 2018.
KAPLAN, R. S.; PORTER, M. E. How to solve the cost crisis in health care. Harvard Business Review, set. 2011.
OECD. Tackling wasteful spending on health. OECD Publishing, Paris, 2017.
PORTER, M. E.; LEE, T. H. The strategy that will fix health care. Harvard Business Review, out. 2013.
SHRANK, W. H. et al. Waste in the US health care system. JAMA, v. 322, n. 15, p. 1501-1509, 2019.
WENNBERG, J. E. Tracking medicine: a researcher's quest. Dartmouth Atlas of Health Care, 2010.
WHO. The world health report: health systems financing. World Health Organization, Geneva, 2010.
WTW. Global Medical Trends Survey 2026. Willis Towers Watson, 2025.

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