Análise setorial Saúde suplementar Modelos de remuneração Julho 2026
Glosas, sinistralidade e remuneração: a distribuição do risco financeiro na saúde suplementar brasileira em 2026
Resumo executivo

No 1T2026, as operadoras médico-hospitalares registraram lucro líquido de R$ 6 bilhões com sinistralidade de 81%, enquanto o índice de glosa inicial dos hospitais privados atingiu 17% no 1T2025 e apenas 1,96% do total glosado em 2024 permaneceu suspenso após contestação. Este paper examina os vetores dessa assimetria, os limites do modelo fee for service e as condições de viabilidade da transição para remuneração baseada em valor.

Nota metodológica. Análise baseada exclusivamente em dados de fontes oficiais e associativas: ANS, Anahp (85 hospitais associados, representando cerca de 25% das despesas assistenciais do setor), IESS e Abramge. Nenhuma projeção quantitativa própria foi elaborada.

1. Vetores de pressão sobre a cadeia prestadora

VetorIndicadorFonte
Inflação médica sistêmica VCMH projetada em 12,9% para 2025; AON estima crescimento do custo médico-hospitalar mundial a 3,6 vezes a inflação geral em 2025 IESS; AON, 2025
Judicialização R$ 4 bilhões em despesas judiciais no 2T2025; R$ 6,8 bilhões em 2024; R$ 23,9 bilhões acumulados nos últimos seis anos ANS; Abramge, 2025
Custo de capital Selic em 15% eleva o custo de dívidas hospitalares e do capital de giro necessário para suportar glosas em aberto e prazos de recebimento acima de 120 dias Banco Central do Brasil, 2026

2. Assimetria de resultado entre operadoras e prestadores

As operadoras saem de prejuízo acumulado de R$ 17,5 bilhões entre 2021 e 2023 para lucro líquido de R$ 6 bilhões no 1T2026. No mesmo período, 41,7% dos hospitais associados à Anahp reduziram investimentos, o prazo médio de recebimento saltou para 120 dias, a margem EBITDA hospitalar recuou 40% e os pedidos de recuperação judicial atingiram recorde de 5.600 em 2025.

R$ 6 bi
Lucro líquido das operadoras médico-hospitalares no 1T2026
ANS, junho 2026
17%
Índice de glosa inicial gerencial dos hospitais Anahp no 1T2025
Observatório Anahp 2025
1,96%
Percentual do total glosado em 2024 mantido após contestação
Anahp, 2025

Limitação analítica. Os dados de resultado das operadoras e os de glosa hospitalar não se referem às mesmas entidades nem ao mesmo recorte temporal. A comparação indica assimetria setorial, mas não permite inferir causalidade direta. A Fenasaúde registra que, de 2018 a 2023, o valor pago pelas operadoras a hospitais em internações cresceu 58%, atingindo R$ 107,8 bilhões.

2.1 A escalada das glosas

O padrão histórico de glosas situava-se entre 3% e 5% do faturamento bruto. Em 2022 saltou para 9%; em 2023 para 11,89%; em 2024 para 15,89%, representando R$ 5,8 bilhões retidos; e no 1T2025 atingiu 17%. Apenas 1,96% do total glosado em 2024 permaneceu suspenso após revisão. Entre 68% e 78% das glosas têm origem administrativa, sugerindo que parte relevante é evitável com melhoria de processos internos do próprio prestador.

Evolução do índice de glosa inicial gerencial (% do faturamento hospitalar) Fonte: Anahp 2024, 2025; Observatório Anahp 2025
Padrão histórico (até ~5%) Período de escalada
Histórico até 2021
3,5%
2022
9%
2023
11,89%
2024
15,89%
1T2025
17%

A distância entre glosa inicial (17% no 1T2025) e glosa efetivamente mantida (1,96%) gera custo administrativo não contabilizado: equipes de revisão, auditoria médica, recursos jurídicos e capital de giro comprometido durante o período de retenção.

3. Sinistralidade: recuperação agregada com heterogeneidade relevante

A sinistralidade fechou 2025 em 81,7% e registrou 81% no 1T2026. A redução desde 2023 é explicada pela ANS como recomposição das mensalidades acima da variação das despesas assistenciais, não como ganho de eficiência assistencial. Esse mecanismo tem limite estrutural: custos médicos crescem sistematicamente acima da inflação geral. A heterogeneidade é relevante: 66% das operadoras operam acima da média setorial; as três maiores concentraram 49% do lucro agregado em 2025; e as autogestões registraram prejuízo operacional de R$ 3,1 bilhões em 2025.

Sinistralidade do segmento médico-hospitalar, 2020 a 1T2026 (%) Fonte: ANS, Painel Econômico-Financeiro (junho 2026)
Sinistralidade Pico do ciclo (1ºsem 2023)
70% 75% 80% 85% 90% 2020 2021 2022 1ºsem 2023 2023 2024 2025 1T2026 74,8% 89,4% 81%

4. Limites estruturais do modelo fee for service

O modelo FFS remunera prestadores por volume de procedimentos, independentemente de desfechos clínicos. A ANS reconhece o problema desde 2016 e publicou guia para modelos alternativos em 2019. A adoção de contratos baseados em valor permanece restrita a grandes grupos hospitalares com capacidade de investimento em dados e governança clínica, conforme registrado nos projetos-piloto do GT de Remuneração da ANS.

Incentivos no modelo FFS
  • Remuneração por volume de procedimentos
  • Risco financeiro concentrado na operadora
  • Sem incentivo à redução de complicações
  • Variabilidade clínica sem consequência econômica para o prestador
Incentivos nos modelos baseados em valor
  • Remuneração atrelada a desfecho clínico
  • Risco compartilhado entre operadora e prestador
  • Incentivo à eficiência e redução de complicações
  • Exige medição real de custos por episódio

5. Condições para transição de modelo

CondiçãoSituação atual no Brasil
Custeio por episódio Ausente na maioria dos prestadores. Metodologias de microcusteio existem, mas não são padronizadas setorialmente
Interoperabilidade de dados Padrão TISS regulamentado pela ANS; integração entre sistemas de prestadores e operadoras ainda fragmentada
Protocolos clínicos Adotados por grandes grupos hospitalares; ausentes ou informais na maioria das instituições de médio e pequeno porte
Capacidade analítica Concentrada em grandes hospitais. A maioria dos sistemas registra consumo, mas não interpreta variabilidade clínica nem simula cenários de custo
Ambiente regulatório ANS incentiva modelos alternativos desde 2016 com projetos-piloto em curso, sem obrigatoriedade ou escala setorial

6. Cenários com base nas tendências documentadas

Cenário de pressão adicional
  • Sinistralidade sobe 2 pontos: representa R$ 5 bilhões adicionais em despesas assistenciais
  • Glosas superam 20%: hospitais de médio porte sem equipe de contestação absorvem perdas definitivas crescentes
  • Prazo de recebimento acima de 150 dias: agrava o recorde de 5.600 pedidos de recuperação judicial em 2025
Cenário de convergência regulatória
  • Regulação de prazo de pagamento e teto de glosa reduz assimetria contratual
  • Expansão dos projetos-piloto da ANS para escala setorial aumenta previsibilidade para prestadores com custeio estruturado
  • Redução de 3 pontos de sinistralidade via eficiência libera R$ 7,5 bilhões no setor (IESS)

7. Implicações por perfil de agente setorial

Operadoras de grande porte
  • Concentração de 49% do lucro aumenta exposição regulatória e reputacional
  • Modelos de remuneração por episódio reduzem risco de judicialização ao alinhar incentivos com prestadores
  • Interoperabilidade de dados com hospitais credenciados é condição para contratos de risco compartilhado viáveis
Hospitais privados de médio porte
  • Glosas acima de 15% comprometem capital de giro e capacidade de investimento
  • Estruturar custeio por episódio é pré-requisito para negociar contratos de pacote sem transferir risco sem informação
  • Automação do ciclo de faturamento reduz as glosas de origem administrativa, que representam 68% a 78% do total
Regulador (ANS)
  • Taxa de reversão de glosas de 98% indica necessidade de regulação do processo de auditoria e prazo de pagamento
  • Expansão dos projetos-piloto de valor requer padronização de custeio por episódio como condição de entrada
  • Interoperabilidade de dados clínicos e financeiros entre prestadores e operadoras é condição ainda não endereçada em escala

8. Considerações finais

Os dados do ciclo 2022-2026 documentam um processo de redistribuição do risco financeiro assistencial com pressão crescente sobre os prestadores hospitalares. A sustentabilidade é limitada nos dois lados: operadoras enfrentam custos médicos acima da inflação geral, judicialização crescente e concentração de resultados que fragiliza os números agregados; hospitais enfrentam glosas em escalada, compressão de 40% na margem EBITDA em dois anos e custo de capital elevado com Selic em 15%.

A transição para modelos baseados em valor é reconhecida como necessária pelo regulador e pelo mercado, mas condicionada a capacidades que a maioria dos prestadores ainda não possui. A variável determinante é o domínio do custo real do cuidado por episódio. Sem essa informação, contratos de risco compartilhado transferem exposição financeira sem a correspondente capacidade de gestão.

Referências

ANS. Dados econômico-financeiros do 1T2026. Brasília: Agência Nacional de Saúde Suplementar, junho 2026.

ANS. Dados econômico-financeiros de 2025. Brasília: Agência Nacional de Saúde Suplementar, março 2026.

ANS. Guia para Implementação de Modelos de Remuneração Baseados em Valor. Rio de Janeiro: ANS, 2019.

Anahp. Observatório Anahp 2025. São Paulo: Associação Nacional dos Hospitais Privados, 2025.

Anahp. Levantamento de indicadores financeiros hospitalares 2024. São Paulo: Anahp, março 2025.

Abramge. Levantamento sobre judicialização na saúde suplementar. São Paulo: Abramge, 2025.

IESS. Textos para Discussão: Variação de Custos Médico-Hospitalares. São Paulo: IESS, série histórica.

AON. Global Medical Trend Rates Report. 2025.

Bernz, I.M.; Malik, A.M.; Ogata, A. Modelos de remuneração baseados em valor. Revista Brasileira de Saúde Suplementar, v.1, 2023.

Sindipar. Hospitais privados do Paraná: impacto das glosas e atrasos de pagamento. Maio 2026.

PlataformaEvodux Intelligence

Inteligência estratégica para desenvolver novos modelos, iniciativas e resultados na saúde.

Desenvolver novos modelos na saúde exige referências capazes de conectar estrutura assistencial, operação, remuneração, mercado e resultado econômico.

A Evodux Intelligence reúne essa inteligência em uma plataforma brasileira especializada, construída a partir de dados, análises e resultados proprietários do setor de saúde.

Explore a plataforma

As análises mais atuais sobre a saúde no Brasil

Assine nossa newsletter e receba semanalmente insights estratégicos sobre gestão, custos e tendências do setor.

Você pode cancelar a inscrição a qualquer momento.

Onde estamos

Rua Quinze de novembro, 13
4º andar, centro, Niteroi/RJ

Desenvolvido por

Privacy Preference Center